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CORREIO B

Theresa Hilcar: "Nosso tempo"

Theresa Hilcar: "Nosso tempo"

Redação

15/12/2015 - 00h00

Acordo às quatro da manhã com um pensamento que vem martelando minha cabeça. O que mais tememos, principalmente nós, ocidentais, é a única coisa que temos certeza absoluta que vai acontecer. Evitamos até mesmo dar um nome, um rosto, uma perspectiva daquilo que vai  nos acontecer mais dia menos dia. O nosso fim. Ou o fim da vida tal como a concebemos. 

Agora mesmo, enquanto escrevo, fazendo algo inédito (mas comum à maioria dos escritores), que é acordar de madrugada com uma ideia e se levantar da cama para escrevê-la, vem à minha cabeça o seguinte pensamento: isto vai mudar alguma coisa?

O que me deixou insone foi o vídeo/palestra de um historiador, chamado Leandro Karnal, sobre o vazio existencial que estamos enfrentando. E, por conta disto, desta falta que nem sabemos direito o que é, passamos a liquidificar a vida, tal como a teoria do filósofo Pierre  Balmain. 

Os amores, os afetos, os relacionamentos, tudo é líquido. Transformam-se e  amoldam-se à nossa conveniência. Somos a cultura mais hedonista de todos os tempos. Conseguimos até transformar Deus e seu filho em nossos cuidadores pessoais. A missão deles é prover todas as nossas necessidades. Que vai da saúde, ao emprego e até a um carro novo. 

Segundo Leandro, o mundo – e principalmente o Brasil – nunca teve um número tão grande  de “religiosos”. E nunca tivemos tantas formas de religião. Segundo ele, nós, os brasileiros, conseguimos fazer algo impensável há um século: customizar a religião. Fazemos um mix das doutrinas e dos ensinamentos, tirando aquilo que, supostamente, não nos serve e incorporando o que nos convém.

A fé está sendo apenas um ingrediente – mágico – que nos dá a certeza de que tudo vai acontecer em nosso favor. Tudo vai dar certo. Basta acreditar! 

Mesmo que a gente não respeite o próximo, nem os sinais de trânsito; mesmo que façamos  julgamentos diários sobre tudo e sobre todos; mesmo que não tenhamos compaixão pelo  nosso semelhante, ou que deixemos de praticar o perdão e a gratitude. Não fazemos a nossa parte. Mais fácil colocar a responsabilidade dos nossos atos, escolhas e atitudes nas mãos de outra pessoa.

A crença é líquida e o sincretismo religioso nunca esteve tão em voga. Enquanto isto, nós nos tornamos pessoas incapazes de escutar o outro. Quando alguém vem até nós para contar algo, um problema, logo em seguida contamos dois. Se nos falam de uma dor, a  nossa dói igual ou mais. Nossos ouvidos se tornaram moucos. Estamos mais ocupados em nos  informar sobre todo e qualquer assunto – incluindo os mais frívolos – do que nos aprofundar em apenas uma questão, de preferência sobre nós mesmos.

Os especialistas estão sumindo do mapa. Temos generalistas em profusão. Inclusive nas empresas. E vai longe, muito longe, o tempo em que se trabalhava apenas no horário do expediente. Com as redes sociais, podemos ser acordados de madrugada para resolver alguma coisa ou apenas para ser lembrado de algo que vai acontecer no dia seguinte. 

E, pior, pensamos que o controle é nosso. Estamos perdidos. Esta é a verdade. Por isto nos agarramos a tudo. Qualquer coisa que nos faça escapar do vazio da nossa existência. E ocorre-me agora que, mais do que a morte, fugimos muito mais da dor. Da dor de viver num mundo onde tantos falam tanto e ao mesmo tempo tão pouco.

Onde o silêncio virou apenas uma palavra. E a felicidade não é mais uma  dádiva, mas obrigação de todos. É quase um carimbo. A tristeza e a melancolia não têm mais  lugar no mundo. 

Na dúvida, um ramo de flores ou algumas carinhas felizes – enviadas on-line, claro! – aliviam nossa consciência. E, com certeza, só os que têm mais de cinquenta conseguiram chegar até o final deste texto. Envelhecer tem dessas coisas, ficamos mais atentos. Infelizmente, não mais sábios.

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