Artigos e Opinião

CENAS

André Luiz Alvez: "Um abraço de presente"

Escritor, publicitário e ator ([email protected])

Redação

17/12/2015 - 00h00

Todo fim de ano é assim, as lojas da Rua Dom Aquino tocam aquela música enfadonha da Simone, “então é Natal...”. De tão chata, fica grudada na memória.

Eu só queria comprar uma caneta, mas, quando percebi, já estava metido na confusão.  De repente, uma senhora puxou uma menina desatenta pelos braços: “Ande logo, precisamos comprar o presente do meu amigo-oculto”. Amigo oculto? Amigo nunca deveria ser oculto. Eu já tive vários amigos, muitos se perderam nas estradas do tempo, outros permaneceram por perto, mas sabe-se lá o porquê já não são tão próximos, perderam o brilho, ou fui eu que apaguei para eles. 

“Então é Natal, e o que a gente fez? O ano termina e começa outra vez”. Música chata do caramba! O arrepio no meu braço é risco da saudade que me atinge – saudade daqueles que se foram, dos que a vida separou e até daqueles que deixei de amar. É possível deixar de amar um amigo? Sim, é possível, mas não é recomendável. Porque a vida é ligeira e logo virá a sofrência causada pela solidão, aquele momento terrível em que nos vemos perdidos no meio da multidão, entre estranhos, procurando um rosto conhecido que nos traga a segurança e o conforto da simples presença. Tenho medo disso. 

Ainda não perdi o velho costume de andar pelas ruas chutando pedras, e cada pedra que chuto traz a lembrança de um amigo ausente. Por onde andará meu antigo melhor amigo? As mãos, que antes ajudavam a transpor abismos, hoje não passam de traços na memória. 

A mãe da menina finalmente escolhe um presente. É uma caixa fria, escolhida na pressa, empacotada num embrulho vermelho, amassado e preso numa fita verde, em forma de nó. Um pensamento ligeiro me ocorre: fora o pessoal de casa, minha mulher e meus filhos, eu não tenho ninguém a presentear neste Natal.

Também não receberei presentes. Nunca liguei para isso. Ou será que estou tentando me convencer, não admitir que seria melhor se eu tivesse um milhão de amigos – menos, bem menos, como quando era moço, dez ou quinze – e para cada um eu escolhesse, naquela loja, na qual a música chata ecoa, um presente de Natal? E o que eu poderia dar de presente? 

Um estalo, a ideia: que tal, em vez de presente, dar um abraço? Mas não um abraço qualquer, frio e desajeitado, mas daqueles apertados, que chegam a sufocar. Calor humano, combustível que abrevia o silêncio e cala o rancor. Um abraço, porque não pensei nisso antes?  Aproveitar e perdoar. 

Que o perdão pode ser considerado um presente ao mesmo tempo ofertado e recebido. Só de imaginar, sinto alívio ao perceber que a velha casca de ferida pode ser eliminada com um simples gesto. Saí da loja levado pelo desejo de ligar para alguns amigos, desejar-lhes um feliz Natal e combinar uma cerveja no fim do dia, só pra jogar conversa fora. 

Na cabeça, a música foi escapando, a calma retomando lugar, agasalhada pela certeza de que é assim que eu quero o meu presente de Natal, singelo e puro feito um abraço de amigo.

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