Fica a sensação de que, infelizmente, famílias estariam sendo usadas para atender outros interesses. Ainda mais quando há placas para vender barracos por até R$ 1,5 mil
Barracos de madeira e lona já foram incorporados às paisagens de quem transita pelas estradas sul-mato-grossenses. Impressiona, porém, o aumento dos acampamentos em alguns trechos, apesar da reforma agrária estar estagnada em Mato Grosso do Sul. Boatos de desapropriações criam ilusões e falsas esperanças para famílias que lutam por um pedaço de terra para viver, produzir e conseguir gerar alguma renda mensal. Recentemente, o Correio do Estado mostrou em reportagem que entidades ligadas ao movimento sem-terra estariam lucrando ao cobrar mensalidades dos filiados. Sem contar o poder de convencimento às pessoas necessitadas, que acreditam terem mais chances de conseguir lotes caso fiquem nos acampamentos de beira de rodovia.
A história de ocupações a propriedades rurais remete, inevitavelmente, a pensarmos no conhecido Movimento de Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). Entretanto, hoje há uma infinidade de siglas que dizem atuar pelo mesmo objetivo: promover a reforma agrária. Somente nos acampamentos situados ao longo da MS-010 são quatro entidades diferentes: Frente Nacional de Luta Campo e Cidade (FNL), Organização de Luta pela Terra (OLT), União Geral dos Trabalhadores (UGL) e Liga Camponesa, conforme mostra reportagem publicada hoje. Infelizmente, esse aumento não refletiu em mais conquistas para quem reivindica um pedaço de terra.
Desde 2010, em Mato Grosso do Sul, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) criou apenas o Assentamento Nazaré, em Sidrolândia. Vale lembrar que, em 2010, a Polícia Federal descobriu esquema de venda irregular de lotes, o que resultou em prisões, até mesmo do ex-superintendente. Parece que, desde então, o Instituto permanece na inércia. Assim, há cinco anos praticamente nenhum passo é dado para assentar famílias no Estado, total contradição com as promessas feitas pela presidente Dilma Rousseff, que sempre conta com apoio desses movimentos sociais nas campanhas. Fica a dúvida, portanto, sobre o contrassenso entre o aumento na quantidade de entidades em defesa do sem-terra e a estagnação das ações para assentar mais famílias. Além disso, o Instituto garante não priorizar quem está acampado, mas respeitar a fila de cadastrados para receber os lotes - condição que tornaria desnecessária a existência dos acampamentos com intuito de “pressionar o governo”.
Mesmo assim, permanece essa mesma ideia de que montar acampamento vai ajudar a acelerar a desapropriação ou a compra de áreas. Foi justamente esse boato que motivou diversas famílias a instalarem-se na região de Rochedinho. Fica a sensação de que, infelizmente, famílias estariam sendo usadas para atender outros interesses. Ainda mais, quando há placas para vender barracos por até R$ 1,5 mil. Total incoerência para aqueles que já estão se sujeitando a péssimas condições de moradia para esperar um pedaço de terra, sem a certeza se irão alcançar esse sonho. Ministério Público não pode fechar os olhos para tais irregularidades que se repetem.