Domingo pela manhã, a campainha toca. Com o único olho que consigo abrir, vou até a porta e me deparo com um grupo religioso fazendo a pregação dominical. Agradeço a oferta e volto para a cama.
No almoço, comento o fato. Meu filho faz uma observação que me parece interessante: “Nunca vi um ateu tentar convencer alguém para deixar de ser crente!” (Talvez porque os ateus não acreditem nem mesmo nisto).
Em tempos de intolerância de toda sorte, como os que vivemos, acho bom pensar nesta possibilidade. Se cada um cuidasse de suas próprias convicções, dando ao outro o direito de pensar diferente, tudo seria mais fácil.
Ando estarrecida com o grau de agressividade das pessoas umas com as outras. Já se sabe que as redes sociais são um poder à parte nesta história, e há vários artigos e crônicas falando sobre o fato.
Todo mundo tem opinião sobre tudo e sobre todos. Não há mais tempo para reflexão, nem para aquelas dos provérbios e das expressões populares, como “em boca fechada não entra mosquito”, porque os mosquitos estão em toda parte. “O silêncio é de ouro”, porque foi assaltado. “Quem semeia vento colhe tempestade” parece conto da Carochinha. “Pense duas vezes antes de agir”, nem pensar! E, pensando em todos estes provérbios e expressões, fico indignada com o cerco que fazem ao Chico Buarque, que sabe como poucos o avesso dos provérbios.
Ouço e leio Chico Buarque desde que ele apareceu e, que me desculpem os chatos, ele é fundamental. É um compositor que dá voz a todas as vozes. “Junto a minha rua havia um bosque, que um muro alto proibia. Lá, todo balão caía, toda maçã nascia, e o dono do bosque nem via” ou “Uma pirueta, duas piruetas, Bravo! Bravo!” celebram a criança; a mãe da criança está presente em “Olha aí! É o meu guri!”; os fantasiados na avenida cantam: “Vem, meu menino vadio. Vem, sem mentir pra você. Vem, mas vem sem fantasia, que da noite pro dia, você não vai crescer!”.
Também os que já viveram muito e não perderam a esperança de amar: “Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar, olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar!”. Prevê a eternidade do sentimento amoroso, dizendo que “Te encontro com certeza, talvez num tempo de delicadeza, onde não diremos nada, apenas seguirei como encantado ao lado teu”. Faz do operário o protagonista, em "Construção": “Subiu a construção como se fosse máquina, e tropeçou no céu como se fosse um bêbado”; e expõe a dor do travesti Geni, na “Ópera do Malandro”, cujo corpo é dos errantes, dos cegos, dos retirantes. “Amigo é pra essas coisas”, muitas vezes, é acionada para vincar de afeto nossas relações.
E são milhares de músicas que poderiam ser lembradas aqui, das mais antigas às mais recentes. Nenhuma que não tenha consistência, melodia e letra de qualidade.
No teatro, “Gota d’água”, escrita com a parceria de Paulo Pontes, é uma adaptação de “Medeia”, de Eurípedes. Assisti ao espetáculo teatral com Bibi Ferreira no papel de Joana, cantando: “Deixa em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa, e qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d’água”, enquanto o coro entoava “Flor da Idade”: "Carlos que amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava... toda a quadrilha”. Então, Chico Buarque é tudo isso e mais um pouco, “apesar de você”!
Um ano novo está chegando, talvez seja hora de querer que ele seja diferente, menos mesquinho, menos ignorante e liberto de preconceito de toda ordem. Quem sabe, assim, eu deixe de achar chatas algumas pessoas... Boa sorte pra você também, leitor!