Artigos e Opinião

OPINIÃO

Raquel Anderson: "Passas praças"

Historiadora e escritora

Redação

31/12/2015 - 00h00
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Na praça, havia uma banda como há muito tempo não se via... Tocavam jingles natalinos, canções brasileiras, sambinhas, marchinhas; as pessoas se acomodavam num enorme semicírculo, muitas delas sentadas junto ao murinho que contornava o chafariz, o qual, por sua vez, parecia aplaudir a banda a cada intervalo entre as apresentações, quando o silêncio era dado e o barulho da água, aliado ao bailado majestoso que o chafariz fazia, reverenciava a banda, numa bela sincronia entre a sonoridade da água e o movimento dela.

Alegres com a música, todos eram contagiados, sem que percebessem; o ambiente na praça era muito favorável, havia uma exposição de flores e ainda uma feirinha de artesanato, tudo junto harmonizando a verdadeira função da praça – esse espaço público milenar, utilizado também, em diversos momentos, com a finalidade de integrar e sociabilizar cidadãos em épocas e civilizações diferenciadas.

A concepção inicial das praças, historicamente falando, nasceu na Grécia e recebeu o nome de ágora, no período que antecede a Antiguidade Clássica. A ágora grega era um espaço urbano aberto, onde se praticava a democracia por meio de discussões e debates. Foi a partir do século 19 que as praças entraram em cena como projetos urbanísticos profissionais, ampliando sua função para espaço de lazer e convívio social, com finalidades mais popularizadas.

Considerando que espaços públicos são democráticos e sendo a praça um marco arquitetônico importante das cidades, as inclinações, referências e simbologismos das praças deveriam nos remeter, sempre, ao entendimento de que a praça é o local de reunião e aproximação das pessoas, por razões diversas, sejam culturais, sociais, comerciais, políticas  econômicas e ambientais.

Basta debruçarmos o nosso olhar e nossas tendências poéticas e amorosas, que todos nós possuímos, para constatarmos o valor, a representatividade e força emblemática que a urbanidade democrática da praça, felizmente, teima em perpetuar-se.

Em pleno século 21, no Brasil, havia nesse dia, num passado muito recente, um eclético número de pessoas reunidas numa praça, a contemplarem uma banda, flores e folhagens naturais, mais um diversificado número de objetos artesanais.

Na frente da banda, o gari que varria a praça divertia-se de maneira encantadora, o longo cabo de sua vassoura transformou-se em diversos instrumentos musicais, de acordo com o ritmo da música executada. Era um violoncelo, era uma guitarra, era um contrabaixo e até uma harpa.

Está na massificação contemporânea do comportamento humano a extração e a inspiração da felicidade, da alegria, da violência, das reações (des)humanas de toda natureza. 

Precisamos de mais praças, de mais bandas, de mais coretos de mais chafarizes, mais pipoqueiros, mais picolezeiros, mais algodões-doces, mais garapas, mais balões, de mais crianças correndo e saltitando alegremente, de mais felizes garis a nos ensinar as variadas possibilidades criativas de tocarmos os nossos instrumentos, que cada um de nós temos e devemos executar para a expansão da nossa alegria, com nossas palmas, nossos assobios, nossos pés, nossas bocas, nossos gingados e nossos molejos.

Talvez no Central Park em NY, no Master of the Nets Garden na China, no Wiener Prater na Áustria, no keukenhof na Holanda, no Parque Guell na Espanha, na Plaza de Mayo na Argentina, na Praça Murillo na Bolívia e em milhares de praças públicas existentes mundo afora, não coabite o feliz gari como o que há aqui, um brasileiro simples e faceiro como o multi-instrumentista da Praça Ary Coelho.

 

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