Artigos e Opinião

ARTIGO

Bosco Martins: "Geraldo Roca e o sentido da vida"

Jornalista, diretor-presidente da Rádio e TV Educativa de MS (RTVE)

Redação

02/01/2016 - 00h00
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Abre aspas para o Roca: “A arte pra mim existe porque as pessoas precisam dela. No nordeste brasileiro é onde se faz a música mais rica e é a região mais miserável. Ou é Deus ou é a manifestação artística. Que no fundo são as mesmas coisas (...) A religião e a arte têm a mesma origem e dão sentido à vida. Tornam a vida tolerável. Este foi o papel da música popular do século 20. As pessoas viveram a vida delas pautadas pelo o que era a moda musical. Desde as melindrosas dos anos 20 até os hippies e Mutantes nos anos 70. Eu enchia o peito para falar que era músico e compositor na década de 70 e 80. Hoje em dia já não tenho mais. Me sinto fazendo parte de um baixo clero de gente que não tem importância nenhuma (...)”.

Essa inquietação nos remete a um sem-número de conceitos e percepções da vida. Mas estaria Roca acometido da síndrome que atormenta algumas profissões, como a da “saudade do futuro”?

Creio que não, mas não deixa de ser mesmo muito inquietante atestar que nos dias de hoje a revolução de costumes não se dá mais pela filosofia e cultura. “A palavra não está mais com o filósofo e escritor, ela está com o astrofísico, astrônomo, a ciência exata... Mas continuo compondo como se fosse importante o que o compositor está dizendo, embora não seja mais assim”.

Para Geraldo Roca, a música hoje é como se fosse um produto de uma espécie de mercado fast-food, longe da concepção de arte, que transforma e faz pensar. Geraldo Roca sempre foi assim. Ermitão de suas pegadas foi mestre de seu próprio disfarce. Se defendeu enquanto pôde com suas sutilezas e tiradas irônicas. Mas o coração de ouro e o sentimento extremamente humano que trazia por dentro permaneciam intactos. 

Se tivéssemos um décimo de seu talento ainda assim não conseguiríamos produzir uma obra tão genial e única como a dele. Muito mais do que o autor de “Trem do Pantanal”, Geraldo Roca foi um  artista  que criou uma  trajetória com  verdadeiras obras-primas, embora desconhecidas. Roca era um pensador pós-moderno,  humanista, um filósofo, e cujos versos cortantes trazem uma visão crítica pessoal e ácida do mundo e do ser humano.

Sem dúvida, a notícia da partida de Geraldo chegou como um soco nocauteador. Entre familiares nas comemorações de Natal em Jaboticabal, no interior de SP, queria não acreditar. Acabava de assistir ao último filme de Tarkovski, o cineasta Russo, uma parábola poética sobre o fim do mundo.  Logo no início, um monólogo reflete sobre a bestialidade da era contemporânea: “Vivemos como Selvagens”, diz o personagem, acrescentando que a humanidade enveredou por um caminho sem volta.

Revirando acervos, percebo agora com maior nitidez em Veneno Light, último trabalho de Roca, em 2003, correlações nas inquietações do artista. O mais criativo dos nossos autores, o cara da mil ideias e projetos, cansou-se do em vão, daí a enigmática discrição e aversão a holofotes.

Inegavelmente, Roca não era o bom burguês que muitos viam transparecer naquela figura introvertida, mas um camponês emigrado que não conseguia se integrar à vida urbana. Roca rabiscava  itinerários de seu mapa secreto, sobrepondo-o à topografia da cidade  moderna, que sempre lhe foi estranha e hostil, nos remetendo na mais completa  nostalgia,  invadida por uma tristeza debochada, não aparente, somente se revelando quando buscou a serenidade helênica. 

Numa das vezes em que  o encontrei, eu já estava dirigindo a Rádio e TV – Educativa, Roca estava entusiasmado com a montagem de um estúdio de som em sua casa, onde nasceu “Novidades Nativas”, coletânea de artistas campo-grandenses.

Seria engraçado que com tantos preparativos para viver, um simples resfriado nos tirasse vida, dizia ele, numa alusão a Benjamin Franklin, o inventor do para-raios.

Roca projetou seu próprio mundo interior sobre o mapa secreto e musical deste itinerário poético que nos deixou, e tentem, se puderem, deter um homem que viaja  com o seu inconformismo  pendurado na lapela. Como Benjamim Roca estava  adormecido pela sua própria indignação.  Partiu como se fosse  sombra dançando na chuva à procura do sentido que quis dar à vida e em busca de seu relâmpago redentor na plenitude de uma paixão, pois não desejava diluir-se na obscuridade do  passar dos anjos.

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