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Luiz Fernando Mirault Pinto: "Ruim com ela!"

Luiz é físico e administrador

Redação

04/01/2016 - 00h00
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Saudoso Martinho, já foi como predizia toda vez que lhe alertavam sobre o “leitinho” que ele tomava cedo. Dizia ele que se Deus fosse bom, mandá-lo-ia para o inferno prematuramente para encontrar e recepcionar o seu chefe de trabalho, e lá fazer todo tipo de mando e desmando, pois para ele antiguidade era posto. E justo no inferno porque sabia que seu admoestador contumaz teria lá, um lugar especial e à ele estaria subordinado eternamente.
Ele era um “street-philos” que tinha um repertório de máximas, ditados e provérbios próprios, sacados na hora certa. “Se os animais dormem depois de comer, porque nós os seres supostamente mais inteligentes devemos trabalhar depois do almoço”. Outra, dizia que era errado falar “não fazer nada”, pois eram duas negativas e sim “Fazer nada!” ou “Não fazer tudo!”.

Nos dias aziagos, segundo ele, nem tudo eram flores e reclamava da companheira, e de como era ruim ter que agüentar e ouvir aquela “inana” falando isso e aquilo outro. Aconselhado a mudar de parceira, ele se justificava negativamente que “isso daria muito trabalho”. O gerente do banco, os vizinhos, e o cara do hotel em que iam às férias, já os conheciam. As festas dos parentes no ano novo, em que se reuniam na esperança de se reencontrarem no ano seguinte. Mudar isso tudo na “altura do campeonato” era difícil. Arrumar uma alma gêmea mais nova (é claro!) mais complicado. “Vassoura nova varre bem, mas custa a pegar o jeito do varredor”.
Existiam ainda as manias de ambos: era muita mania para começar de novo. Depois de uma explicação embasada, concluía- “Ruim com ela, pior sem ela”!

A mim, me parecia uma espécie de Síndrome de Estocolmo, aquele estado psicológico em que uma pessoa tem simpatia, amor, amizade, após algum tempo de submissão, a outra supostamente sua obsessora, apesar de saber que o Martinho estava sempre em de bem com a vida, e em outra e que de fato, depois de tantos percalços, ele jamais se livraria facilmente de sua cara-metade. 

Recordei-me dele com suas máximas – “Não tenho procuração de ninguém – ninguém dá procuração, quem dá é alguém” que se encaixam exatamente nesse momento em que se vislumbra o impedimento ou afastamento da Presidenta. 

Em meio à crise econômica que se encrenca com a crise política, alimentada por expectativas incertas resultado da microcefalia, não a do Zika-virus, mas a do embotamento mental por falta de estímulos, daqueles que acham que um afastamento proporcionará encontrar a trúfula perdida, uma terra cheia de cores, uma árvore capaz de fazer com que todos possam respirar ares mais puros.

Quem se preocupa com o futuro, sabe como são intrincados os caminhos da política e da economia internacional. Os efeitos de agora se prolongarão por alguns anos até que os líderes mundiais se certifiquem das intenções das novas figurinhas carimbadas que surgiriam e se manteriam os acordos firmados ou estariam alinhados com suas intenções. O“déjà vu” da variação cambial, da majoração dos juros, da fuga de investidores, da especulação, do desabastecimento, da hiperinflação e da estagnação econômica estaria às nossa portas. 

Os afoitos, que nada tem do espírito do Lorax (personagem e não remédio) e muito menos o que perder, a idéia central inconseqüente é apenas desocupar a moita! As metas orçamentárias, inflacionárias, ou fiscais são parâmetros estimados, previstos, e mesmo quando estabelecidos em normas legais, quem as define é o próprio governo que está sujeito a revezes, crises, ajustes necessários e má gestão, mas não propriamente uma falta que a administração não possa rever a qualquer tempo. As chamadas “pedaladas”, isto é o uso de recursos da CEF para pagamento de benefícios sociais, é uma prática corriqueira e já empreendida na era FHC, e que apesar da avaliação e interpretação sobre “um crime de responsabilidade”, jamais seria motivo para um afastamento, exceto, é claro, o receio da oposição na manutenção do “status-quo” garantido pelos benefícios já pagos, oportunidade por ela já usufruída, e perdida.  

O ano passou, e nada acontecerá, pois metas foram auto-fixadas e assim fazem os governos. Não tenho procuração de alguém (como diria Martinho) para defender quem quer que seja muito menos disposição para procurar a trúfula perdida, e apesar de tudo, ainda acho que ruim com ela, pior sem ela (como Cunha), a menos que ela também tivesse contas na Suíça.

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