Escrevo a primeira crônica de 2016 numa manhã de chuva fina e persistente do dia primeiro. É só mais uma chuva de verão, mas me faz lembrar outros tantos dias primeiros, depois de festas gloriosas e outras nem tanto. Tempos em que a ansiedade da juventude tornava obrigatória a comemoração do novo ano. Curioso como a maturidade faz a gente perder a urgência das coisas desimportantes. Talvez seja o modo de a natureza humana nos acalmar diante da solidão eminente, fato que se torna mais presente em cada ano que passa e do outro que vem. Passar a noite de Réveillon assistindo a um filme comum e dormir muito antes que os fogos comecem a pipocar no céu não é mais nenhuma tragédia. Por que antes era.
Mesmo porque, nos últimos dias de 2015, ela bateu à nossa porta de forma assombrosa. E junto dela veio o soco no estômago, o tapa na cara. A morte não é um assunto que gostamos de falar. Quando então ela é deliberadamente antecipada, nosso desejo é calar. Dá medo. Viver é muito perigoso, já disse Guimarães Rosa. É mesmo muito perigoso. Principalmente para quem pensa demais; questiona; avalia; pesa; mede cada canto; cada centímetro da vida; faz do talento uma âncora, mas sofre com aquilo que Gal canta tão lindamente sobre a dor e a delícia de ser o que é. Neste caso, a “dor de viver” calou mais fundo.
Não era esta crônica que eu pensei escrever. Não era este tema que gostaria de abordar, logo no primeiro de 2016. Mas, tal qual meu amigo que se foi, não consigo fingir o que sinto nem falar de coisas alheias ao meu presente. Contrariando Pessoa, ouso dizer que nem sempre o poeta é um fingidor. Não dá para disfarçar o sentimento de profunda impotência, igual a todos que ficam. Às vezes, até de culpa. Nessa hora, começam a surgir perguntas, pequenas memórias de tempos atrás, algumas frases. Os sinais, se houveram, me passaram totalmente despercebidos. Isto graças à mania de deixar as coisas no meio do caminho; de não ver o outro tal como ele realmente é. Como uma singela homenagem, ouço o jazz de Billie Holiday e deixo a música me levar para onde ela quiser. Dona Música.
Mas não posso deixar de pensar também que boa parte desse sentimento advém do hábito que cultivamos, desde pequenos, de nos sentirmos o umbigo do mundo. O centro do universo. Que também pode ser a ferida narcísica, como explicou Freud. Aquela que faz tudo girar ao nosso redor. Nossos problemas, alegrias, dores, tudo é nosso. É único e é maior que tudo. Vivemos de forma tão aleatória, ligados a coisas que não nos dizem respeito, cobrando responsabilidades, apontando o dedo para tudo e para todos. Somos realmente muito ocupados com a gente mesmo. Desde a hora em que colocamos o pé fora da cama até a hora em que voltamos para ela, tudo o que acontece tem algo a ver conosco. Pensamos não, temos certeza de que somos especiais, melhores.
No entanto, não nos dedicamos um minuto que seja para olhar para dentro. Não gastamos nem um segundo para refletir e ver que a dor que sentimos também é a dor do mundo. Por isto, o choque diante da perda. Porque ela é a constatação da nossa pequenez, é o reverso da nossa onipotência, a prova cabal da nossa miséria interior. A perda nos sacode, mas nem sempre muda o que pensamos ser. Somos agarrados demais aos nossos defeitos, nossas dores, nosso ego. Nem as perdas conseguem nos tirar de nós mesmos. Precisamos ser o outro para sermos nós mesmos, diz o escritor e poeta moçambicano Mia Couto. Infelizmente, nós ocidentais não aprendemos a perder nem a aceitar as coisas como são. E elas são, acredite. Não temos o controle de nada, nem coisa alguma.
A chuva parou de repente. Pode ser que o dia, contrariando as previsões, seja de sol.