É inevitável refletirmos que a população precisa fazer sua parte para evitar que o sistema de saúde continue passando por momentos críticos
Surpreendente e absurdo chegarmos ao ponto de ocorrer um congestionamento de ambulâncias no pronto-socorro da Santa Casa de Campo Grande. Mais do que representar deficiências estruturais, a imagem mostrada ontem pelo Correio do Estado revela causas que influenciam no colapso existente na área da saúde. Epidemia de dengue, com agravante dos casos de zika vírus e chikungunya transmitidos pelo mesmo mosquito, aliada ao aumento de acidentes de trânsito no período de chuvas, constituem a mistura de risco que resultou no desastre. Infelizmente, as dificuldades não se resumem a situações pontuais. Ontem, o caos repetia-se nas unidades de saúde, lotadas de pessoas à espera de atendimento.
É inevitável refletirmos que a população precisa fazer sua parte para evitar que o sistema de saúde continue passando por momentos críticos. Em relação à epidemia de dengue, apesar dos constantes alertas, focos do mosquito ainda são facilmente encontrados pela cidade. Chegamos a acompanhar prisão de um empresário, ação que não voltou a se repetir, apesar de as irregularidades permanecerem. Multas são aplicadas e, por mais que a prisão tenha ocorrido somente para dar um susto na população, do tipo “você pode ser o próximo”, o simples fato de saber das graves consequências da dengue, do risco de ficar doente ou até morrer já deveria ser suficiente.
Há ainda o agravante de o poder público não fazer sua parte. Já mostramos diversas vezes as obras paralisadas que se tornaram criadouros da dengue. Uma das cenas mais críticas de focos do mosquito foi presenciada no Aquário do Pantanal e, agora, o Governo impede o acesso da imprensa novamente ao local. Ou seja, impossível saber se a obra pública continua com tais irregularidades. Problemas semelhantes foram encontrados em construções de escolas e Centros de Educação Infantil (Ceinfs) que estão suspensas.
No que tange ao gargalo do trânsito, também ocorre essa mesma divisão de responsabilidade: para amenizar as graves consequências, é necessário envolvimento de todos os moradores e do poder público. Um dia chuvoso ou fim de semana prolongado significam caos no pronto-socorro, em decorrência de imprudências, ingestão de álcool ao volante e alta velocidade. Neste ano, em média, nove motociclistas são atendidos todos os dias na Santa Casa. A sobrecarga também decorre da ineficiência de outros hospitais, a exemplo do Regional, que não atende esse tipo de especialidade. A retomada da obra do Hospital do Trauma, com recursos assegurados, deve ajudar a amenizar esse gargalo. Somam-se ainda os acidentes em decorrência da buraqueira nas ruas ou a falta de campanhas de trânsito, apesar dos milhões arrecadados todos os meses em multas.
Não há dúvidas de que precisamos melhorar a estrutura de hospitais e unidades de saúde. É inaceitável que, em situações emergenciais, seja preciso enfrentar horas de espera. Entretanto, um pouco mais de responsabilidade e comprometimento de todos só trará benefícios. Caso contrário, as dificuldades tendem a aumentar e os investimentos jamais serão suficientes para atender à demanda.