Artigos e Opinião

CRÔNICA

Maria Adélia Menegazzo: "São chuvas de verão..."

Maria Adélia Menegazzo: "São chuvas de verão..."

Redação

19/01/2016 - 00h00

Todos os anos vemos se repetirem as enchentes causadas pelas chuvas e, como somos abarrotados de imagens sobre elas, parece que são sempre uma novidade. Claro que o discurso noticioso também ajuda a termos essa impressão, com estatísticas e previsões, dizendo que agora são diferentes. Ao lado da visão fatalista dos molhados e perdidos entrevistados a dizerem que “Deus quis assim”, temos a irresponsabilidade de loteamentos em áreas de risco, toneladas de lixo boiando pelas ruas e entupindo bueiros e toda sorte de estupidez que o homem pode praticar em prejuízo próprio. Além da ausência do poder público para prevenir o que pode ser prevenido.

Chove sem parar desde o dia 4 de janeiro. Hoje, 17 do mesmo mês, é o primeiro domingo de sol, desde cedo até agora, pelo menos. Nunca se sabe. Podemos riscar do vocabulário a expressão “chuvas de verão” com o sentido de algo passageiro. Não neste. Estamos todos de corpo e alma encharcados. Seres hidropônicos, talvez. Mofados.

Reli, nestes dias chuvosos, alguns relatos poéticos de chuvas e enchentes e as imagens não mudam. Em “Menino de Engenho”, de José Lins do Rego, a novidade de uma enchente do Rio Paraíba, aos olhos do menino-narrador que vinha da cidade, é uma peça rara: “É muita água! O rio vai às vargens. Vem com força de açude arrombado. O povo a gritar por todos os lados. E o barulho das águas que cresciam em ondas nos enchendo os ouvidos. Num instante não se via mais nem um banco de areia descoberto. Tudo estava inundado. E as águas subiam pelas barreiras. Começavam então a descer grandes tábuas de espumas, árvores inteiras arrancadas pela raiz. (...) Eu fiquei a pensar donde viria tanta água barrenta, tanta espuma, tantos pedaços de pau. E custava a crer que uma chuvarada no sertão desse para tanta coisa”. Uma enchente é sempre uma enchente de água e de lama. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, mas as imagens, ao final, não mudam nada.

Já uma boa chuvarada pode mudar o mundo, como descreve Manoel de Barros, no “Livro de Pré-Coisas”: “O mundo foi renovado, durante a noite, com as chuvas. Sai o garoto pelo piquete com olho de descobrir. Choveu tanto que há ruas de água. Sem placas, sem nome, sem esquinas. (...) Alegria de manhã é ter chovido de noite! A pelagem do gado está limpa. A alma do fazendeiro está limpa. O roceiro está alegre na roça, porque sua planta está salva. Pequenos caracóis pregam saliva nas roseiras. E a primavera imatura das araras sobrevoa nossas cabeças com sua voz rachada de verde”. 

Preciso acrescentar: com as chuvas fica tudo um quieto só para além delas. Uma cortina de água isola o mundo barulhento das buzinas, das músicas de mau gosto a circular pelas ruas, dos alarmes disparados nas casas vazias de férias. Ficam só, como diz Guimarães Rosa, uns inhos passarinhos. Vêm secar as penas nas grades das janelas, nas cumbucas dos cachorros, aproveitando pra fazer uma boquinha. “De seus pios e cantos respinga um pouco até aqui”. Chuvas, verão. A alma fica sem aflição dentro do peito e o tempo passa bem passarinho. 

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