Fica cômodo demais ignorar as próprias falhas, culpar e penalizar os outros. O exemplo é necessário na mesma proporção da cobrança
Cabe a cada um fazer sua parte para combater os focos do mosquito transmissor da dengue, zika e chikungunya. Discurso que todos já conhecem, mas, infelizmente, não é colocado em prática nem mesmo pelo poder público. Recentemente, o Correio do Estado mostrou o abandono na Secretaria Municipal de Infraestrutura de Campo Grande, com sucatas de veículos e entulhos. Entretanto, é fácil encontrar outros casos onde o desleixo é evidente. No período de férias, as escolas municipais estão tomadas por mato e, em muitas, há lixo acumulado nas calçadas ou pátios.
Fica a contradição ao acompanharmos a prefeitura notificando proprietários e aplicando multas que variam de R$ 2 mil a R$ 8 mil, enquanto não cuida do “próprio quintal”. No ano passado, foram 16,9 mil notificações. Logicamente aqueles que cometeram irregularidades devem ser devidamente cobrados e, caso resistam a fazer as adequações simples, precisariam ser punidos. No entanto, a mesma legislação e cobranças devem valer para todos.
Ironicamente, a prefeitura divulgou no sábado, em seu site, reportagem com o seguinte título: “mutirão comprova que infestação de mosquito se deve a descuidos da população”, referindo-se às vistorias na região do Dom Antônio e Lageado, onde 86,2% dos focos foram encontrados dentro de residências. Os moradores não estão isentos da culpa, mas a prefeitura parece ignorar o fato de que nessa mesma região há o lixão, que favorece a proliferação de diversas doenças. Será que lá não encontraram recipientes com água parada?
Em plena epidemia, a negligência permanece também porque quase 80% da cidade está sem serviço de limpeza (varrição e capina de canteiros). O trabalho deveria ser feito pela CG Solurb, que não está recebendo os pagamentos relativos a essa parte do contrato. Por mais que houvesse a necessidade de rever o aumento concedido durante o período em que a administração ficou sob comando do prefeito Gilmar Olarte, a população não pode ficar desassistida de serviços essenciais. A despesa com limpeza aumentou 107% devido à necessidade de incluir outras regiões da cidade, algo que não estava previsto no contrato. O descaso com a suspensão permanece desde outubro do ano passado, período considerado mais crítico para a proliferação do mosquito Aedes aegypti.
Somente neste ano, quase quatro mil pessoas tiveram dengue em Campo Grande. Pessoas morreram. Há ainda o agravante do zika vírus, que causa temor nas gestantes, pois o bebê corre risco de nascer com microcefalia. Governos gastam milhões com pesquisas para desenvolver vacinas ou novas técnicas que possam impedir a proliferação das doenças. Hospitais ficam lotados, sobrecarregando ainda mais o sistema de saúde já deficiente. Todos esses problemas parecem não ser suficientes para que medidas simples, de limpeza, tornem-se rotina para moradores e poder público.
Fica cômodo demais ignorar as próprias falhas, culpar e penalizar os outros. O exemplo é necessário na mesma proporção da cobrança. Parceria e cooperação são palavras-chave para evitar a repetição dos problemas resultantes das epidemias.