Não me lembro da peça de teatro que vi pela primeira vez. Também não me recordo de ter tido febre, como aconteceu com Proust na véspera da apresentação de um dos sucessos de Sarah Bernhard, uma de suas grandes obsessões. Confesso que, até os 17 anos, quando fui cursar línguas neolatinas na PUC do Rio de Janeiro, nunca tinha visto uma verdadeira peça de teatro. Encenações de grupos amadores tinham passado por meus olhos, nos anos de internato em Fortaleza e no Colégio Santa Inez em São Paulo, mas elas não fazem parte de meu currículo de deslumbramentos.
Meu grande impacto com uma representação cênica aconteceu em 1948, no Teatro Ginástico, quando me encontrei com Sérgio Cardoso na sua magnífica interpretação de Hamlet.
Não foi sem razão que o poeta Keats definiu a beleza como uma alegria para sempre, porque, muitas vezes, quando me vejo rememorando as cenas inesquecíveis da peça, ondas de pura emoção ressuscitam-me para os prazeres do viver.
Aquelas duas horas de alumbramento, de fuga do real, acompanham-me através da mediação da voz, do gesto e do olhar do ator, que assumiu os tormentos do príncipe da Dinamarca na eterna dúvida do ser e do não ser.
No silêncio dos degraus do teatro, Sérgio Cardoso parecia um ser de outra galáxia, oscilando entre o dever de vingar o pai, castigar a mãe, desprezar a amada e ser perseguido pelo fantasma, que surgia dos seus olhos para invadir os meus, nessa incorporação entre vida e arte, que é um dos grandes milagres do teatro.
Quando Hamlet viu despedaçadas as últimas esperanças, quando a amada Ofélia desapareceu no fundo das águas, e as palavras “o resto é silêncio” encerraram a peça, ressurgi do atordoamento em que mergulhara e, num ímpeto de suprema coragem, corri até o camarim para ver se aquele gênio, que me deixara em êxtase, era um ser real ou um fantasma de outras eras.
Com a simplicidade dos grandes artistas, conversou comigo, prometendo reencontrar-me um dia em novas e admiráveis performances. Enquanto isso, ressoavam em minha memória seus gestos mais significativos, nesse olho no olho do ator com o espectador, na inter-relação misteriosa palco e plateia, que distingue o teatro de todas as outras artes.
Alguns anos depois, nos idos de 1966, por um desses felizes acasos, que acontecem como o sol que bate de repente no vidro de uma janela, fui convidada por minha aluna Maria Gessy Sales a encontrar-me em sua casa com Sérgio Cardoso, que viera a Campo Grande conhecer o Pantanal.
Com a simplicidade dos grandes artistas, tratou-me como um de seus parceiros de arte cênica, dando-me orientação de como montar uma peça de teatro de Arena, que dispensa complicações de cenário e na qual, por meio do sistema “coringa”, os atores podem desempenhar todos os papéis.
Foi assim, graças a sua sugestão, que se montaram as peças do TUC, Teatro Universitário de Campo Grande, que marcaram época em nosso estado e deixaram saudade.
Será que ele soube da sua influência na organização do TUC? Será que descobriu em sonhos que, a partir de Hamlet, o teatro tornou-se prioridade em minha vida?
“O resto é silêncio.”