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Editorial desta quarta-feira: "Estratégia equivocada"

Editorial desta quarta-feira: "Estratégia equivocada"

Redação

03/02/2016 - 00h00
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Enquanto nada é feito para atacar o problema em sua origem, os gestores continuarão aplicando recursos em vão para tentar conter o tráfico dentro das cidades

Durante dez anos, toneladas de maconha e cocaína saíram da fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai para a Espanha e Itália. A quadrilha era formada por “barões” do tráfico que faturavam milhões. Até a tarde de ontem, 20 pessoas já estavam presas no esquema, que contava com a participação de envolvidos de outros quatro estados. Fica a dúvida sobre quantas outras quadrilhas com essa mesma dimensão continuam a atuar livremente na fronteira, passando por nosso Estado. Número imensurável, se considerarmos as pequenas remessas apreendidas diariamente, sem termos ideia de quem são os grandes grupos criminosos por trás das “encomendas”. Na maioria das ações, apenas o condutor do veículo acaba atrás das grades, aumentando os gastos do governo estadual com presidiários sem praticamente alterar o sistema ilícito.

Falta fiscalização e, principalmente, estratégia. Todos os estados brasileiros gastam milhões todos os anos para combater a venda e o consumo de drogas dentro de suas cidades. A violência cresce de forma assustadora. Todos os dias, pessoas morrem em algum ponto do País em decorrência da “guerra do tráfico”. Tudo porque há enorme resistência do governo federal em atacar o problema na sua origem. O efetivo disponibilizado para atuar no Estado é vergonhoso se mensurarmos o tamanho da nossa fronteira com países produtores de drogas. E, para piorar, os aparatos tecnológicos que podiam auxiliar nos trabalhos de monitoramento são subutilizados, a exemplo dos scanners veiculares (raios X), que poderiam ajudar a descobrir as cargas escondidas, sobretudo em carretas.

O Sistema Integrado de Monitoramento das Fronteiras (Sisfron) patina há mais de três anos, quando começou a ser implantado. A ideia era totalmente válida: contar com tecnologia – como câmeras e veículos aéreos não tripulados – para vigiar as cidades fronteiriças, além de reforçar as ações de combate à criminalidade em pontos estratégicos, ou seja, na fronteira. Entretanto, no ano passado, o vice-presidente da República, Michel Temer, anunciou que a crise econômica resultaria em cortes de recursos, e o cronograma das ações deveria atrasar 13 anos. A criminalidade já estava dominando a fronteira e, infelizmente, a situação fica ainda mais crítica se houver necessidade de esperar o fim das dificuldades econômicas.

Muito antes de qualquer anúncio de crise, a fronteira já era negligenciada pelo governo. As ações de segurança foram lembradas apenas durante a campanha eleitoral, quando investimentos são anunciados, mas nunca se concretizam. Lamentavelmente, continuaremos a acompanhar criminosos fazerem fortuna – atuando livremente durante dez anos – com a venda de entorpecentes adquiridos que passam sem barreiras pelas estradas sul-mato-grossenses. Enquanto nada é feito para atacar o problema em sua origem, os gestores continuarão aplicando recursos em vão para tentar conter o tráfico dentro das cidades, seja para manter pequenos traficantes atrás das grades ou até com investimentos em saúde pública. Fica difícil crer que estratégias chegaram a ser pensadas, diante de tanto descontrole.  

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