No período de recessão, além da “economia forçada” das indústrias, o consumidor precisou rever alguns hábitos e até abrir mão de certos confortos
A queda de 5,7% no consumo de energia elétrica - na comparação de janeiro deste ano com o mesmo período do ano passado - inicialmente, poderia ser vista como algo positivo do ponto de vista ambiental e até mesmo do lado econômico. Entretanto, resulta de motivos preocupantes. É mais um dos reflexos da retração econômica. A inflação alta, o desemprego e, consequentemente, a queda geral nas compras obrigou as indústrias a reduzirem significativamente a produção. O recuo foi de 8,3% no ano passado, pior desempenho da série histórica do IBGE, iniciada em 2003. É como se a produção nacional retrocedesse a 2009.
O cenário não é diferente em Mato Grosso do Sul, onde as indústrias tiveram, em 2015, o pior desempenho nas vendas externas dos últimos cinco anos. A receita com exportações somou US$ 2,87 bilhões, retração de 21,9% em relação ao ano anterior. Esse resultado decepcionante é consequência do fechamento de 9.185 postos de trabalho durante todo ano, além da primeira queda em 14 anos no valor do salário da indústria. Aí aparece a lógica da crise, num ciclo que hoje parece interminável: há menos gente consumindo, a indústria precisa reduzir o ritmo de produção, o que resulta em desemprego e, consequentemente, mais pessoas perdendo seu poder de compra.
Neste cenário de dificuldades, seria inevitável que a quantidade de energia consumida não diminuísse. Teríamos muito a comemorar se essa redução fosse consequência da conscientização dos brasileiros. Afinal, a escassez de chuva nos reservatórios, ainda no fim de 2014, obrigou o governo federal a acionar as térmicas, que geram energia mais cara e poluente. Por isso, foram criados os sistemas de bandeiras tarifárias e todos os consumidores estavam pagando mais caro na conta de luz, na chamada bandeira vermelha. No período de recessão, além da “economia forçada” das indústrias, o consumidor precisou rever alguns hábitos e até abrir mão de certos confortos para conseguir fechar seu orçamento no fim do mês.
Fica difícil tentar encontrar outra explicação para queda no consumo de energia ao acompanharmos o desastre financeiro que o Brasil enfrenta. Na verdade, a resposta está nas renúncias a que os brasileiros foram submetidos pela política econômica equivocada da presidente Dilma Rousseff. Primeiro, houve total descontrole em incentivar o consumo, com isenções e reduções de impostos que possibilitavam baixar preços, além de estímulos ao crédito. Muitos endividaram-se e não deram conta mais de arcar com os débitos. O ano de 2015 encerrou com 59 milhões de brasileiros na lista de inadimplentes.
Agora, o governo tenta reverter a derrocada financeira apostando na oferta de linhas de crédito no valor de R$ 83 bilhões, principalmente nas áreas de agricultura, infraestrutura e habitação. Porém, agora, não estamos em condições de encarar novos erros da atual gestão. O risco de aumentar endividamento é grande, mas, ao mesmo tempo, é preciso sair da estagnação. Retomar confiança, garantir investimentos e crescimento integram as expectativas. Assim, voltaremos a ter fôlego para o consumo.