Ano letivo se iniciando, e eu aqui, refletindo. O que estão fazendo com nossas crianças? O que estão fazendo com nossos professores? Para onde estamos indo? Que rumo se está trilhando na educação brasileira? Estamos perdidos... Quando o carro enguiça e não conhecemos nadinha de mecânica, costumamos dizer que a peça que enguiçou foi a “rebimboca da parafuseta”! Acho que chegamos exatamente nesse ponto quando se discute educação. O que não está funcionando? Não sabemos! Apesar de todas as tentativas de reforma e das medidas que foram tomadas para melhorar o nível de qualidade do ensino, a escola tradicional continua ativa e em alta, em suas manifestações mais atrasadas. Já disseram que, pela observação direta do que se passa na sala de aula, desde a pré-escola, o avanço é quase nulo nos últimos 50 anos. Perdemos a mão, como se diz popularmente... crianças abarrotadas de conteúdos inúteis. Basta observar o peso das mochilas, quase virando malas. As inúmeras apostilas e livros. Decoreba imperando mais do que nunca.
Quando instituíram o Enem, prometendo mudança nos exames do Ensino Médio, consequentemente no vestibular, fiquei esperançosa. Afinal, o que ia prevalecer era o entendimento, a interpretação, a relação dos conteúdos com a vida prática. Pensei que essa nova forma de avaliação iria mudar o ensino em todos os níveis, até chegar à pré-escola, acabando com a escolarização precoce. Engano! Os cursinhos pré-vestibulares continuam enriquecendo e atuando com extrema voracidade. As escolas competindo e exibindo em seus outdoors a sua competência traduzida em números de alunos aprovados no Enem! Quanto mais livros e apostilas e tarefas, melhor... os pais acreditam nisso. Agora, a moda é da escola bilíngue e até trilíngue, em um país no qual os alunos nem sabem usar a própria língua!
Há bem pouco tempo, pais, professores e alunos, mesmo com ideologias diferentes, tinham clareza das razões para ir à escola. A tarefa fundamental era a de poder contribuir para a construção de um país sem pobreza, sem sofrimento e sem desigualdades sociais. Com o compromisso implícito ou explícito de construir uma sociedade mais justa (responsabilidade social) e, dessa forma, devolver ao País o que se havia recebido, até como privilégio e não como direito. Hoje, não temos mais um projeto coletivo. As situações e as preocupações dos estudantes, pais e professores mudaram. Estamos vivendo o dilema de escolher entre contribuir para acabar com a pobreza e a desigualdade social, ou preparar-se para competir no mercado de trabalho. São razões completamente distintas. A competição virou o principal motivo de se frequentar a escola. No entanto, é preciso saber que não existe competição sadia – a vitória de um surge da derrota do outro (Maturana). Infelizmente, essas crianças, desde a mais tenra idade, não estão se preparando para a vida e, sobretudo, a conviver com o outro. Estão sendo formadas para um mundo pobre de sentimentos e emoções. Um mundo de egoísmo! Maturana (um neurobiólogo chileno, crítico do realismo matemático e criador da teoria da autopoiese e da biologia do conhecer) diz que são as nossas emoções (desejos, preferências, medos, emoções...), e não a razão, que determinam, a cada momento, o que fazemos ou deixamos de fazer. Para ele, e eu acredito, é a emoção que define e determina nossa ação. Isto a escola não faz!
A escola de hoje está incentivando a competição exacerbada, o egocentrismo, a falta de comunicação (linguagem oral), o decoreba de conteúdos inúteis para a vida, a obediência, o não comprometimento e a não participação... o que as crianças fazem na aula, na maior parte do tempo, é: sentar, ouvir e copiar do quadro. Raramente se pede que façam observações, formulem definições, questionem o que estão aprendendo, ou realizem qualquer operação intelectual que ultrapasse a repetição (tal e qual) do que outra pessoa disse ser verdadeiro. Seus questionamentos se resumem em: quantas linhas deve ter a resposta? Quanto tempo para responder as questões da prova? O que os alunos mais fazem na aula é adivinhar o que o professor quer que eles digam, isto é, a resposta certa. A grande questão é: são incentivados a competir com quem? Entre eles? Para disputarem um mercado de trabalho que não existe? Para competir com as grandes nações é que não é. Acho que o problema é mesmo a rebimboca da parafuseta!