Segunda-feira de Carnaval. Enquanto o povo se esbalda cantando sucessos do rádio do momento, ela está na cama, aguardando Dona Rosinha, a parteira municipal.
São oito e meia da noite quando dá à luz. O pai e a futura madrinha soltam rojões: a primeira menina depois de três meninos na casa. Assim reza a lenda do meu nascimento. O fato de ter nascido no Carnaval pode ter influenciado quem sou? Acho uma graça, quando digo que nasci em fevereiro, portanto, sou aquariana e as pessoas me respondem que isso é muito bom.
Não sei o que significa ser aquariana, a não ser por aquilo que diz o senso comum. Já sei de cor: são pessoas sensíveis, dedicadas às artes. Ah, bom? Eu sou assim, mas quem não é? Quem não aprecia uma boa música, um bom livro, um bom filme? E nem precisa ser os três juntos. Até para ficar olhando a natureza como paisagem, ou, ainda, ficar “olhando as saias de quem vive pelas praias coloridas pelo sol”, requer sensibilidade. Então, não é por aí.
E o Carnaval? Pagão como ele só, já nem tem mais identidade. Há tantos carnavais fora de hora que perdeu a graça. Carnaqui, Carnali, Carnacolá! Consentido social e religiosamente, no Carnaval tudo pode. Caia na gandaia! Entre na festa! Bota o bloco na rua! Chegou a turma da alegria, chegou a turma do funil e o mosquito que vá picar batatas.
Refugiados de diferentes tribos encontram cordões, blocos e escolas, nem sempre de samba. Há humor para todos os gostos e desgostos, alguns bizarros, outros macabros, marcados para chamar atenção. Uma atmosfera quase circense dá lugar a pretensões e megalomanias. Quanto riso! Oh! Quanta alegria! Vai, com jeito vai; senão, um dia a casa cai! Houve um tempo em que Arlequim chorava pela Colombina no meio do salão.
Depois, eles entraram na avenida pra desfilar, ela virou porta-bandeira e ele mestre-sala. Mas chegou o Carnaval e ela não desfilou. Bum Bum Paticumbum Prugurundum. Liberdade! Liberdade! Abra as asas sobre nós, pra tudo se acabar na quarta- feira. Ao mesmo tempo, uma turma sai atrás do trio elétrico na Bahia, porque quem não vai já morreu.
Então, era um tal de: não se perca de mim, não se perca de mim, não desapareça! A chuva tá caindo e quando a chuva começa eu acabo de perder a cabeça! Ô balancê, balancê, quero dançar com você, entra na roda, morena pra ver, o balancê, balancê!
Mais tarde, os yuppies chegaram com seus camarotes cervejeiros e a coisa desandou. Acho que não deu samba. Ou, se deu, eu não prestei atenção.
Hoje os blocos estão de novo nas ruas, e as marchinhas de Carnaval, com suas letras fáceis de decorar, com a irreverência que lhes é própria, trazem um pouco da alegria que nos faz tão bem. O carnaval e a astrologia me ensinaram o que significa ser cíclico. Mas eu aprendi que a vida passa.