Eu acabara de participar de um evento literário em outro estado e me encontrava no aeroporto para regressar à casa. Chegando ao local procurei uma lanchonete para comer algo.
Pedi ao atendente um sanduíche com carne suína e ele pegou do chão um pernil cru e de mau aspecto. Reclamei, mas ele não me deu ouvidos, tirou uma fatia de carne e começou a picá-la em pedacinhos. Adverti-o de que desejava um sanduíche normal, ou seja, duas fatias de pão com fatias de carne preparada dentro, mas ele disse que ali só faziam sanduíches daquele modo. Desisti e fui embora, à procura dos outros companheiros de viagem, que se encontravam no saguão de espera.
Fiquei ali conversando com alguns deles e observando a intensa movimentação no local. Olhando para baixo, vi que calçava sapatos diferentes em cada pé. De repente, ouvimos um baque surdo e vimos um dos nossos colegas, um famoso escritor, que, vestido apenas com uma sunga para a prática esportiva, dera um salto mortal e aterrissara de pé num tablado de madeira bem à nossa frente. Depois desse, ele continuou se exibindo, com diversos saltos e piruetas no ar, quando era delirantemente aplaudido.
Eu estava preocupado com a iminência da chegada de nosso avião, pois deveria pegar minha mala que vinha nele (?) e redespachá-la, uma vez que aquele era um voo internacional e haveria os necessários trâmites pela alfândega. Afastei-me do grupo e saí em direção ao local de entrega de bagagens, quando ouvi um ronco muito forte de motores e imaginei que fosse o avião pousando, mas, na pista de terra que avistei no meio de um matagal, corria apenas um enorme caminhão levantando uma nuvem de poeira.
Continuei caminhando e logo vi o avião estacionado no pátio. Fui em direção às bagagens, mas deparei-me com um emaranhado de escadas escuras e tentei subir ao que me pareceu o lugar procurado, mas encontrava uma barreira de inúmeras pessoas descendo. Quando consegui subir, constatei que ali era apenas um mirante com vista para o pátio de aeronaves. Voltei com dificuldade, mas me perdi num labirinto de corredores escuros, onde não havia ninguém. Comecei a ficar nervoso e cada vez mais perdido. Caminhava a esmo e suava frio, certo de que perderia o voo. Já entrando em desespero, acordei num sobressalto: fora apenas um pesadelo.
Aí não mais consegui dormir. Aliás, sempre acordo muito cedo e não retomo o sono, ainda que tente. Fiquei matutando na madrugada sobre essa coisa chamada sonho, pensando em sua complexidade, tentando entender seu significado.
Tenho tido esse tipo recorrente de sonhos, em que sempre enfrento dificuldades de toda ordem. Os mais comuns são ambientados em locais onde trabalhei. Certa ocasião, em busca de um tratamento para essa dificuldade em permanecer dormindo na madrugada, procurei um médico homeopata. Ele concluiu que a causa eram tais manifestações, que denominou “sonhos canseira”, e iniciou os procedimentos para modificá-los. Mas, por várias razões, não acreditei na eficácia do tratamento e o abandonei.