Para quem não o conheceu, seu nome era Naudemir Xavier, bonitense da gema. Mimito foi vereador (1977/1982), vice-prefeito (1983/1988) e prefeito (1989/1992). Ele nos deixou no último dia 16, por problemas renais, aos 72. Entristeceu Bonito, de fato; pois, mais que um administrador público, Mimito, como era carinhosamente chamado por todos, continua sendo o primeiro e único filho de Bonito eleito pelos seus próprios conterrâneos.
Mimito sempre foi um sujeito do bem. Político à moda antiga, quando o ideal era comum e se sobrepunha a todos os interesses e objetivos pessoais. Tanto que, ao contrário do que se vê hoje, em que a política acaba sendo o trampolim para o sucesso pessoal, Naudemir, um homem simples, empobreceu na vida pública. Dedicou-se a ela e, na liturgia da retidão, despojou-se até de bens pessoais.
Não sei dizer como surgiu o apelido, mas Naudemir Xavier sempre foi chamado de Mimito. O sentido literal é diverso e, como a maioria das expressões da nossa língua, é de origem grega: gesto ou expressão carinhosa com que se trata outra pessoa. É sinônimo de meiguice, delicadeza, cordialidade ou um presente inesperado.
Mimito, curiosamente, também é considerado como uma espécie de sufixo de Bonito. Numa rápida reflexão sobre o passado desse homem público, que nunca foi “político profissional”, percebe-se que, na acepção da palavra, o apelido do ex-prefeito se encaixa no sinônimo delicadeza. Em outras palavras, educação, carinho com o próximo. No dicionário, desfilam-se outros significados igualmente coerentes com essa figura extraordinária que administrou Bonito e ganhou respeito e admiração de sua gente.
Em se tratando de política tradicional, pode-se dizer que Mimito era um peixe fora d’água, mas mergulhou profundamente para levar a cabo sua gestão de feição doméstico-popular.
A trajetória de Mimito está umbilicalmente ligada à história da cidade. Recorde-se que em todos os feriados santos era “sagrada” a presença dele, especialmente nas comemorações ao padroeiro, São Pedro Apóstolo.
Na mais tradicional festa religiosa dos bonitenses, lá estava Mimito, montado em seu cavalo, acompanhado sempre pelos filhos e netos. O fiel e lendário devoto liderava as dezenas de cavaleiros e amazonas e fazia questão de empunhar os estandartes. Jamais faltava aos bailes do “Caarapé”. Sem ele, a festa de mais de meio século perderá um pouco de sua animação.
Mimito foi me apresentado pelo ex-prefeito Geraldo Marques. Trocamos boas e longas prosas sobre a cidade e os amigos. Figura especialíssima, homem de bom astral, de fácil sorriso. Ele era, sobretudo, muito cordial e não se importava com o grau de importância no escalão de autoridades.
Lembro-me de duas passagens, uma delas tensa, mas que permitiu amadurecer a amizade entre nós. Nos idos de 2007, na campanha de reeleição do ex-prefeito Geraldo Marques, eu acabara de ganhar disputa partidária interna para ser candidato a vice. Na ocasião, Geraldo disse: Boscão, você é o meu vice, mas gostaria de te apresentar o Mimito. Se você e o partido concordarem, gostaria de ampliar nossa coligação e trazer ele para ser vice. Você topa, prezado? Mimito acabou compondo a chapa e fizemos uma campanha dura. Na nova estratégia de palanque, era eu quem fazia as críticas mais ácidas.
Outro episódio com ele. A campanha pegava fogo e já quase ao final fiz duras críticas a um grupo que supostamente havia desviado recursos públicos. Eis que Mimito me liga, pedindo pra ir à casa dele tratar assunto urgente.
Fui acompanhado da minha esposa, dona Márcia. Reparei que tinha lideranças dos dois lados. Um advogado da coligação adversária abriu a palavra, pedindo uma trégua nas minhas críticas, pois a campanha já estava por finalizar e não havia razão para tripudiar. Mimito me convenceu a aceitar a trégua.
Da convivência com Mimito, só extraí boas lembranças. Ele deixa um legado. O legado de franqueza, honestidade, simplicidade e respeito ao semelhante. Com a saudade, somamos essas boas lembranças, fazendo do exemplo de Naudemir a diretriz da nossa conduta nesse mundo, em que a política agrega sinônimos tão ruins.