Transbordamento dos córregos e alagamento das vias é problema crônico; durante anos, os investimentos foram feitos na tentativa de reduzir os danos, mas ainda são insuficientes
Não é de hoje que a população de Campo Grande vê a cidade, literalmente, desmanchar-se a cada temporal. Os alagamentos tornaram-se recorrentes em avenidas de grande fluxo de veículos como na Ernesto Geisel ou na rua Joaquim Murtinho. Esta semana, além dos transtornos, infelizmente, já comuns, a força da água levou grande parte do asfalto da rua Jerônimo de Albuquerque, no bairro Nova Lima. Os moradores da região, aliás, aguardam o início da execução do trabalho de drenagem e pavimentação, com recursos já em caixa, mas que ainda não tem prazo para ser iniciado.
O bairro Nova Lima faz parte de “pacotão” de obras previstas com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). No total, são R$ 312 milhões que objetivam contemplar 23 bairros e, na região específica, são R$ 68 milhões que incluem melhoras em projetos de recapamento e asfaltamento englobando as ruas José Tavares, Oscar Salazar, Marquês de Herval e avenida Lino Villachá. No ano passado, na turbulência política da saída de Gilmar Olarte e retorno de Alcides Bernal, esta etapa do projeto acabou sendo prejudicada. A licitação deveria ter sido aberta em 2015, o que não foi feito agora. Paliativamente, cabe à administração cobrar a empreiteira responsável pela manutenção e, enquanto isso, remendar a rua da melhor maneira possível.
Este é mais um exemplo de como a cidade foi prejudicada com a briga iniciada com a eleição em 2012. A gestão tumultuada estagnou projetos importantes.
A Câmara de Vereadores, que deveria ter fiscalizado e cobrado a execução dos serviços que teve o cronograma da licitação prejudicado, também estava envolvida na queda de braço com o Executivo.
Em 2016, a intenção era construir relação mais amistosa entre prefeito e vereadores, mas não é o que se vê na prática. O ano Legislativo mal começou e parece estar fadado a tropeçar nos mesmos percalços do ano passado: a falta de entendimento com a administração.
Além do entrave político dos últimos anos, Campo Grande padece de planejamento amplo de pavimentação e drenagem. O transbordamento dos córregos e alagamento das vias é problema crônico; durante anos, os investimentos foram feitos na tentativa de reduzir os danos causados pelas chuvas, mas ainda são insuficientes. O crescimento de áreas construídas e redução de áreas verdes precisa ser fiscalizado com mais rigor. A ocupação de áreas inapropriadas para receber construções potencializa os efeitos dos temporais. A ampliação de construção de galerias pluviais ajudaria a resolver o problema.
Porém, só a ação do poder público não é suficiente. É comum ver o entupimento das vias de escoamento, justamente por causa da falta de comprometimento de cidadãos que insistem em jogar lixo nas ruas. Essa conscientização tem resultados que vão além da solução dos alagamentos, é questão de saúde pública. Vivemos período crítico, com a proliferação do mosquito Aedes aegypti e, com ele, o crescimento de casos de dengue, zika vírus e chikungunya. São ações irresponsáveis que desencadeiam resultados em várias esferas e atingem diretamente a população.