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Luiz Fernando Mirault Pinto: "AC/DC"

Luiz é físico e administrador

Redação

22/02/2016 - 00h00
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Fim do carnaval. Lá foi a festa popular pagã da Roma Antiga, incorporada ao calendário pelo cristianismo ao marcar um período de festividades do Dia de Reis até a quarta-feira anterior à Quaresma. O termo “carnaval” tem seu significado relacionado à celebração dos prazeres carnais, exclusivamente terrenos ou uma comemoração representando um contraponto àquele comportamento recatado próprio da religião mas sendo compreendido como antítese das obrigações cotidianas que se impõe a sociedade, e por incrível “que se pareça”, por ela mesma.

O carnaval, principalmente no Brasil, é um marco que estabelece para muitos o começo verdadeiro do ano após todo o interregno das festividades. Embora as escolas, não as acadêmicas do samba, mas da educação, ainda teimam em iniciar o ano letivo desconsiderando os feriados carnavalescos. 

Alguns luminares desconectados socialmente opinam sobre os prejuízos causados a nossa macroeconomia, um discurso ultrapassado de quem não sabe o potencial e o resultado gerado pelas indústrias que tem suas produções aquecidas pela demanda específica dos materiais carnavalescos (bordados, paillettes, lantejoulas, penas, tintas) acrescido da indústria fonográfica, da propaganda, dos direitos autorais, do turismo, das bebidas, da mão-de-obra temporária, da hotelaria, transporte e alimentação, e a sobrevida dos ambulantes.

Embora seja caracterizado como uma festa pagã, somente os apadrinhados festeiros tem acesso aos desfiles, aos camarotes, aos abadas, aos palanques, aos trios elétricos, enquanto o povo pagão é aquele que realmente paga o pato e vê um desfile pendurado em viadutos.

Mesmo assim, esse “pique-alto”, se reflete nesses dias de festejos pelo esquecimento das obrigações. Desde os festejos natalinos, do ano novo, até o sábado de Aleluia, já se estendendo ao Domingo; nada de trabalho; de contas;  de compromissos e contratos; acertos e promessas. 

Esse calendário é marcado pelo AC/DC, não o dos roqueiros-metaleiros, do conjunto australiano, do cantor gasguita, ou do tal Angus, aquele retardado de calças curtas, babando e saracoteando pelo palco, alucinando os alucinados, nem aos do ENEM que nada sabem de Corrente Alternada e Corrente Contínua e muito menos aos “carolas” de então, bem longe de me referir a era cristã, antes e depois do anno domini, marco do nascimento de Cristo. O AC/DC a que me refiro é o “Antes e o Depois do Carnaval” e ao intervalo, o anno festum.

É um momento pitoresco onde surgem as celebridades, as rainhas, princesas, madrinhas, que se esconderam nas academias durante o ano normal, com bombas, anabolizantes cavalares para formar as perninhas de barata (coxa grossa e canela fina), bronzeamentos, descoloramento, depilações, cursos de danças e entrevistas televisivas de cantoras, e de puxadores do inimaginável. Os armários se abrem e toda a fauna e flora desfilam e exibem suas extravagâncias nos blocos. Um espaço no calendário que permite a apresentação de shows financiados pelas prefeituras e pelos incentivos a cultura dirigida para aqueles que têm cadeira cativa. 

Isto é Brasil, visto e invejado ou visitado pelo mundo inteiro. Embora não sendo uma exclusividade brasileira quem não gostar que vá ver o carnaval fúnebre de Colônia, Veneza, Astúrias, Canárias ou mesmo as bandas e fanfarras em Nova Orleans, terra do blues e não do samba, que mais se assemelham aos Ranchos das Sociedades Carnavalescas de antigamente e seus féretros alegóricos.

As bandas estão nas ruas, finalmente ocupando os espaços públicos, com mães, crianças, avós, jovens festivos em substituição ao bailes chiques, cafonas, e “cabulosos” dando lugar a personagens exógenos, figuras exóginas, peças misóginas e aberrações siliconadas, dando matéria às emissoras de televisão que insistem ainda em mostrar a sem-graceira de bêbados atrás de um trio elétrico de um lepo-lepo sem nexo, ou uma marchinha travestida de samba.

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