Artigos e Opinião

CRÔNICA

Theresa Hilcar: "Ode ao silêncio"

Theresa Hilcar: "Ode ao silêncio"

Redação

23/02/2016 - 00h00

Se ao menos por um instante eu pudesse reescrever o famoso poema “Funeral Blues”, escrito  pelo inglês W. H. Auden – magnificamente lido no filme “Quatro casamentos e um funeral”, eu  talvez o fizesse assim: “Que parem todas as prensas, computadores, repetidoras de TVs, smartphones e toda a  tecnologia. Que sejam tiradas do ar todas as redes sociais. Que emudeça não o piano, mas as  vozes dos apresentadores de todos os canais do mundo, que possamos ouvir apenas o som  dos tambores que virão de algum lugar do Oceano.

Que os aviões, gemendo acima em  alvoroço, escrevam contra o céu o anúncio: estamos em silêncio – e em paz. Que as pombas se  aquietem, pois não precisam mais se inquietar diante do excesso. Que todos possam se  locomover para onde quiserem: norte, sul, leste, oeste, e sejam recebidos com alegria pelos seus iguais. Vamos deixar quietas as estrelas, a lua, fazer as pazes com o sol, deixar viver os mares, as florestas”. 

Digo isto porque ando cansada de tantas notícias ruins, alarmantes, extremamente dolorosas e  tristes. Não quero mais saber de escândalos, nem propinas, negociatas, assaltos aos cofres  públicos e aos bolsos da população. Não quero ouvir falar sobre a reforma da Previdência, nem a volta da CPMF ou rebaixamento do País no mercado internacional. Não quero saber de  estupros, de famílias perdidas e sem esperança, de crianças usadas para o crime e propaganda,  de jovens sem futuro e sem educação. Cansei de olhar fotos e cenas de uma guerra urbana  sem sentido.

Ando enfastiada de ouvir falar sobre o mosquito, enquanto esgotos correm a céu aberto e a  população continua espalhando lixo por absoluta falta de noção. Continuo enojada com o  toma lá dá cá no Congresso, enojada com a cara de pau de políticos que gastam os nossos  impostos em uísque, carros blindados, tríplex na praia e viagens de primeira classe. Não quero saber de amantes, secretárias ou jornalistas sem escrúpulos, da deselegância e falta de decoro dos envolvidos. Ando sem paciência alguma para as opiniões de especialistas e o constante  julgamento de incautos – e ignorantes.

Que sejam todos enviados novamente para as escolas. De preferência em tempo integral. Que  lhe sejam oferecidas aulas de ética em profusão. Que a maioria das aulas seja de literatura e a  outra de matemática – para ensinar o raciocínio. Que a saúde – e não a doença – seja direito  de todos e a segurança um gênero de primeira necessidade. Que o silêncio seja incentivado,  diariamente, em todos os lugares, por cinco minutos. Que sejam desligados todos os barulhos  e com eles as nossas indignações.

Porque o mundo está repetitivo demais - e muito chato. E estamos nos acostumando a tudo. Mas não devíamos. Já disse a escritora - e sábia Marina Colasanti - no livro: “Eu Sei, Mas Não  Devia”, que a gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. “Em doses pequenas,  tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá... 

A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto  acostumar, se perde de si mesma”. Tem razão, Marina. A gente não deveria se acostumar com  uma vida tão banal.

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