Já contei aqui a história do ferroviário Florisvaldo, que foi maquinista da antiga Noroeste do Brasil, e que, aposentado, foi viver num sítio às margens do rio Aquidauana. Nesse bucólico lugar, rodeado pelas belas paisagens da região de Palmeiras e Piraputanga, ele e Edvirgem viviam tranquilos e sem preocupações. Vez por outra os filhos e famílias os visitavam para compartilhar momentos de paz e saborear deliciosas peixadas.
Seu paraíso situava-se próximo à estação Camisão e, quase todos os dias, no horário do trem de passageiros, o nostálgico Florisvaldo ia até lá para ver a movimentação, matar saudades e, quando possível, trocar um dedo de prosa com o colega maquinista.
Para ele, aquele contato, a movimentação de passageiros embarcando e desembarcando, os vendedores de artesanatos, de chipas, pastéis e doces, ou mesmo os curiosos que ali compareciam apenas para assistir ao acontecimento, eram um bálsamo, provocando-lhe recordações e sentimentos contraditórios, de alegria e tristeza ao mesmo tempo. Recordava-se das incontáveis vezes em que, de seu posto na cabine da locomotiva, contemplava aquela agitação de pessoas aproveitando os poucos minutos em que a composição ali permanecia, para as despedidas de quem partia, para vender suas mercadorias, etc.
Certo dia ele soube que a ferrovia seria transferida para uma concessionária que iria explorar os serviços. Não entendeu muito bem o que isso significava, mas ficou um tanto preocupado. Procurou se informar com outros colegas aposentados, mas a maioria também estava cheia de dúvidas.
Entrou em contato com o sindicato da categoria e o que lhe informaram deixou-o ainda mais preocupado: a nova empresa, entre outras medidas, iria desativar o transporte de passageiros e concentrar-se apenas no de cargas.
Com relação à sua situação pessoal, foi informado de que, pelo menos, os proventos dos aposentados estavam garantidos pelo governo federal. Menos mal, pensou.
Dito e feito. Pouco tempo depois, no horário habitual, foi até a estação e lá havia apenas algumas pessoas, entre elas uns poucos dos empregados que antes atuavam no local. Por estes ficou sabendo que, a partir daquele dia, não haveria mais trem de passageiros trafegando por aqueles trilhos que por muitos anos ele percorrera. Ficou arrasado. Triste e acabrunhado, voltou para seu recanto e contou à mulher o lamentável fato, deixando-a também desnorteada.
Dali em diante sua vida mudou. Para pior. Não teria mais a alegria de ver a chegada e a saída do trem de passageiros, a movimentação das pessoas na estação, os vendedores... Não teria mais contatos com os colegas para saber das novidades acerca do trabalho que tanto amou.
Com o passar dos dias, semanas, meses, foi perdendo o interesse por outras coisas de que gostava, como as pescarias no rio ao som de seu radinho de pilhas que, aos poucos, foi emudecendo até calar-se definitivamente quando Florisvaldo, desiludido, atirou-o ao rio para nunca mais ouvir suas músicas preferidas.