O comportamento independente da mulher moderna è decorrência de um amadurecimento do movimento feminista?
É uma pergunta que emudece muitos homens. Afinal, ainda não se acostumaram a dividir o leme. Muitos dizem que o movimento se fortaleceu com o amor livre e a igualdade entre homens e mulheres defendidos no Movimento da Contracultura dos anos 60. Outros ainda dizem que foi “culpa” do neoliberalismo que abriu o mercado de trabalho para as mulheres como forma de enfraquecer sindicatos trabalhistas, sempre liderados por homens.
Fatores sociopolíticos não interessam muito. Nossa preocupação é pensar um pouco a respeito do distanciamento afetivo e das incertezas nos relacionamentos, onde destacamos dois tipos - um, embalado pelos valores tradicionais = o homem é o centro, o outro, embalado pela libertação feminina = responsabilidades iguais na relação. No processo de transição de modelos, a mulher sobrecarregou corpo e emoções.
Abandonando o velho papel de procriadora apenas, a mulher contemporânea desafiou o machismo. Umas ainda sofrem, presas ao moralismo judaico-cristão de Adão e Eva. Outras tantas administram sua nova liberdade, muitas vezes pagando o preço da arrogância masculina, que, não podendo ter o controle da situação sexual e afetiva, ensaia um distanciamento, tentando barganhar por atenção e carinho que outrora obtinha naturalmente, por conta do preponderante papel masculino na sociedade tradicional. Hoje em dia, a divisão igualitária de papéis masculinos e femininos ainda tem que ser administrada por instrumentos de controle, do tipo Delegacias da Mulher e Lei Maria da Penha. Frequentemente ouço preocupações sobre a instabilidade das relações atuais. Certamente se relaciona ao momento de ajustamento e amadurecimento dos papéis femininos e masculinos, no âmbito social e afetivo.
A estabilidade de uma relação requer um abandono do individualismo e do egocentrismo, o que quer dizer que uma relação tem estabilidade na medida em que ela ache terra boa para cultivar o NÓS, que soma sentimentos, ideias e expectativas. A longevidade de uma relação depende de uma boa expectativa ou projeto de vida devidamente compartilhada – da ideia à ação.
Por ser mais voltada a qualidade de emoções e sentimentos, a mulher modernizada espera, em meio à solidão proposital ou relações passageiras, o amadurecimento emocional masculino, que, a duras penas, busca equilibrar o racional com o emocional nas relações, mas continua o campeão na infidelidade. Resultado - sobrecarregou corpo e emoções também. Provisório e pressa são características do mundo modernizado, e a busca pela estabilidade material e pessoal abre caminho para incertezas das relações duradouras, que, se durante séculos atuaram como parâmetro de sucesso existencial, hoje tem que se acostumar à liquidez das coisas, mesmo do amor!
Com futuro obscuro, fica mais difícil construir uma perspectiva de longo prazo. Com ameaças anunciadas de comprometimento de qualidade de vida no nosso planeta, resta à mulher modernizada resgatar a secular paciência que a acompanhou até poder desfrutar da igualdade sem falso moralismo e da liberdade de ser leve, livre e solta para ser admirada, amada e namorada, coisas estas ainda deficitárias no mercado masculino, onde, muitas vezes, o sexo é um disfarce para a solidão não assumida.