Tenho por hábito refletir sobre o tempo. O tempo como princípio e como fim de todas as coisas. O tempo como instante. O tempo como duração. Contra o tempo do relógio, como o coelho de Alice, sabemos que é impossível lutar, ignorar como passa e o significado dessa inexorável passagem. Só a memória é capaz de dispor do tempo a seu bel-prazer.
Por exemplo, minha prima Tereza Cristina, além de ter nome de rainha, tem também um baú de lembranças. Ela guarda muitas fotografias da família e, de quando em quando, resolve compartilhá-las. Recebi com muita alegria uma foto do balanço da casa da minha avó Adélia, onde estão sentadas, além dela, suas três irmãs: Alba, Maria e Julieta.
É uma foto simpática, que desperta o que há de suave na memória: a saudade! Saudade delas, do balanço e da casa. Sob os efeitos da “Peregrinação” de Manuel Bandeira, posso dizer que embora a casa ainda exista, mas não seja mais da avó, e que todas as irmãs tenham morrido, o balanço, provavelmente, continua lá porque continua aqui, dentro de mim, de mim daqueles tempos.
O narrador de “À Sombra das Raparigas em Flor”, de Proust, fala sobre o desejo de esquecer, que é o outro lado da memória do tempo: “Como o hábito enfraquece tudo, o que melhor nos recorda uma criatura é justamente o que havíamos esquecido. Eis porque a maior parte da nossa memória está fora de nós numa viração de chuva, num cheiro de quarto fechado ou no cheiro de uma primeira labareda, em toda parte onde encontramos de nós mesmos o que a nossa inteligência desdenhara”.
Como esta, são muitas as cenas literárias em que, por meio da memória, personagens são lembradas, recriadas ou desconstruídas. Mas sempre aos pedaços. Num olhar, num som, num cheiro, num objeto.
Parece que o conhecimento do outro também é uma questão de tempo. A cena final de “Manhattan”, de Woody Allen, considerada clássica, memorável, é com frequência mencionada quando se pensa nas situações em que é preciso confiar em alguém. “Nem todo mundo se corrompe. Você tem que ter um pouco de fé nas pessoas”, diz a jovem Tracy (Mariel Hemingway) a um estupefato Isaac (Woody Allen). Como confiar ao tempo a vida de alguém. Ou será que só no tempo é que a vida pode ser confiada a alguém?
Os romancistas, os artistas, os músicos, os diretores de cinema não têm alternativa senão “acelerar freneticamente” a passagem do tempo. Em “O Jardim dos Finzi-Contini”, o escritor Giorgio Bassani opta por um protagonista que não vive senão de recordações, o que o faz desejar que o presente se torne rapidamente passado, para poder considerá-lo ao seu modo: “Diante da recordação, toda posse só pode parecer decepcionante, banal, insuficiente...”. A tradução cinematográfica deste romance tem o mesmo título e foi realizada por Vittorio de Sica.
Então é esta a experiência misteriosa da memória, da lembrança que une as pontas do tempo, do passado com o presente, dando explicações muitas vezes contraditórias, incompreensíveis, incontroláveis, mas sempre únicas. Pode-se dizer que é aí, na memória, que as narrativas aparentemente se encerram, não importa a linguagem.
É aí que o devir se torna silencioso, uma prudente reserva de vida e de continuidade.