Quão penoso é direcionar o olhar e ficar com a visão do que se enxerga. Ver uma criança feia é uma visão do dantesco. Não se crê no conceito que se é forçado a ter. Sabe-se que isso não cabe na mente de ninguém, conceituar uma criança como feia é pensar: estou tendo uma visão delirante. A mente se perturba e, creia, o estômago se revolta.
A ideia de ir ao “lixão”, estacionar, observar, mesmo por pequeno tempo, impacta fortemente. Ao sair de perto, a imagem do que se vê fica. Uma menina de cabelos espigados, olhos sem brilho, mão sujas, levando à boca uma espiga milho (o que, felizmente, não me deixou ver os dentes), veste que pouco lhe cobre do corpo, pernas como estacas, de tão finas, como fino é todo o restante, pés no chão, é visão comparável a documentário sobre campos de concentração nazistas. Jamais acreditei ver algo parecido por aqui, bem ali, na saída para Sidrolândia. Ao leitor deste previno, ir até lá, especialmente ao volante, é delicado. Ao deixar o local, os olhos que têm que se voltar para a estrada, ficam embaçados, dificultam ver o caminho a seguir.
No entanto, a visão se lubrifica. Tudo o que de dantesco se vê, ainda que doa e revolte como: saquear para chegar e se manter no poder; embustes, jocosamente chamados de pedaladas fiscais; contas bancárias fora do alcance do fisco, enquanto seus titulares sustentam a tese absurda que não sabem da origem do dinheiro ali depositado e até que tudo veio de enlatados exportados; patrimônios incompatíveis com a renda mensal de seus ostentadores proprietários; gangs de inocentes que sustentam teses cínicas, dizendo não saberem da origem do dinheiro depositado em suas respectivas contas; partidos integrados por corruptos com debochadas afirmações que só receberam doações legais; empresas dirigidas por corruptores que doam para lucrarem; patrimônio reformado, ampliado, mobiliado, equipado, enfeitado, sem custo e sem ter proprietário; contrato com empresa de coleta de lixo sedo suspenso sob alegação de reavaliação, não importando se o lixo ficara nas ruas; atraso de pagamento a coletores de lixo, tendo “empenho” efetivado; repasse do serviço de coleta redirecionado ao antes contratado, sem explicação sobre a “reavaliação”; compra de votos para cassar “aliado” e “companheiro” de chapa (embaixo do nosso nariz).
O “tudo” acima é o que se vê e que tem correção, com a elevação do que vota, acima de tudo, estando a autoridade competente constituída, aparelhada e bem paga (como merece). Mas o “isso” que se traduziu de uma criança feia, simplesmente, não pode existir. A autoridade competente para cuidar deste “não existir” está constituída, não creio que bem paga, como merece (seu salário deveria superar o de um ascensorista do Senado), é o promotor público, em especial, da infância e da adolescência. Ouso provocá-lo, mais que isso, eu o desafio (atrevidamente, eu sei) a determinar que se cumpra a lei: criança em ambiente de risco (e que risco), insalubre (quanta insalubridade moral) NÃO. Que se implante, inicial e imediatamente, creche; educação infantil, (horário integral), junto às sedes das empresas de coleta do lixo, no caminho de acesso ao mesmo (afastado 2 Km); plantão diuturno, com equipes com poder de polícia, a cada três horas (dado à insalubridade), no lixão (ou em cada um deles). Custe o quanto custar. Recorra-se às instituições favorecedoras do bem (Unesco – clubes de serviço - criança esperança), aos legisladores que ainda existem, para que se confisque bens dos corrompidos, dos corruptores e traficantes. Tomemos ao mal o capital para erradicar o mal que não pode existir: a criança feia. Tudo, até um mar de lama, como o que está ai, pode até se ver e corrigir. Desde que não se tenha a corrigir criança feia. A correção não pega, a alma marcada na infância que lhe deveria, por direito, ser querida (como declama Cassimiro de Abreu em “Meus Oito Anos”) lhe será sempre pesadelo. Criança feia, não......isso não.