Soa como total contrassenso a constatação de que oportunidades de gerar emprego e bons rendimentos no campo estão sendo desperdiçadas.
A área rural de Campo Grande realmente surpreende: são 7.752,36 quilômetros quadrados, o equivalente a 95% do município. Muitas vezes, quem vive o cotidiano da cidade, da correria do trabalho para casa, desconhece a importância da produção agropecuária da Capital. Os produtos – como soja, milho, cana-de-açúcar, frutas e outros – rendem, por ano, R$ 112,4 milhões, conforme o último dado divulgado pelo IBGE, em 2014. A força do campo poderia, no entanto, ser muito maior, considerando fatores como extensão territorial ou a demanda de consumo. Isso porque ainda mantemos a dependência de outros estados para adquirir diversos produtos que poderiam estar sendo produzidos aqui, gerando renda para os campo-grandenses e reduzindo os preços aos consumidores.
Série de reportagens do Correio do Estado, iniciada no domingo, apresenta aos leitores o que está sendo produzido na Capital. A maior parte da área rural ainda é destinada à pastagem (70% do total), o que nos garante o oitavo maior rebanho sul-mato-grossense. Soja e milho também são vistos com facilidade nas propriedades do entorno da cidade. Afinal, o agronegócio está sendo a principal contribuição na arrecadação do Estado em tempos de crise, com resultados positivos na exportação, corroborados com a alta do dólar. Segue-se no campo, portanto, rumo completamente oposto ao cenário caótico do ramo industrial, que teve queda de R$ 804 milhões nas vendas externas durante o ano passado em MS.
Campo Grande destaca-se também no ranking do mercado de trabalho na área rural. Na comparação com outras capitais, só perde para São Paulo em quantidade de trabalhadores formais na agropecuária. Diante do cenário de recessão econômica, o campo poderia ser melhor utilizado. A Capital tem espaço a ser aproveitado, clima favorável, terra boa e demandas que não são atendidas. Há pelo menos cinco anos, repete-se a informação: 80% das frutas, legumes e verduras consumidos na Capital são adquiridos de outros estados pela Ceasa. Os primeiros passos estão sendo dados para incentivar a agricultura familiar e espera-se que, finalmente, possamos ver alguma alteração nesse porcentual, há tanto tempo inalterado. O governo estadual lançou o Programa Terra Boa, com intuito de beneficiar 5 mil agricultores familiares.
Produtores como Cícero de Souza mostram que é possível. Ele é dono de área de cinco hectares, com 18 mil pés de mamão plantados. Consegue comercializar 500 caixas da fruta por semana. Entretanto, 44% do mamão vendido na Ceasa ainda vem de São Paulo. O mesmo roteiro de dependência ocorre com a produção de hortaliças: não produzimos a quantidade que consumimos. Assim, a renda que poderia estar sendo gerada aqui acaba indo para fora, com riquezas destinadas a outros municípios. É um caminho que precisa ser mudado.
Em tempos de crise econômica, com vagas de empregos sendo extintas, soa como total contrassenso a constatação de que oportunidades de gerar emprego e bons rendimentos no campo estão sendo ignoradas.
Colhemos, aliás, deixamos de colher o atraso de anos de falta de investimentos e incentivos para um setor rentável e com demanda de consumo. Um evidente desperdício!