As investidas dos Estados Unidos contra os governos ditos de esquerda podem, porém, ir muito além das agendas oficiais de Obama.
A histórica visita do presidente Barack Obama a Havana, em Cuba, iniciada no domingo, representa transformações significativas nas relações políticas e econômicas entre os dois países, que começaram a ser delineadas ainda em dezembro de 2014, com as primeiras sinalizações de reaproximação. Essa é a primeira visita de um presidente dos EUA a ilha em 88 anos. São 53 anos de rompimento diplomático. Não deixa de ser um duro golpe no comunismo, que ainda resiste no país caribenho, corroborado pela estratégia norte-americana de expandir o capitalismo, mantendo seu domínio econômico.
A América Latina ainda conta com nichos de resistência ao regime bolivarista. Na Venezuela, presidida por Nicolas Maduro, herdeiro político de Hugo Chavez, que, inclusive convencionou o uso do termo que faz alusão ao general Simon Bolivar. A esquerda ou socialismo também mantêm domínio na Bolívia, sob comando de Evo Morales, e no Equador, de Rafael Correa.
Entretanto, já há fortes demonstrativos do quanto a resistência desses regimes está abalada. O povo venezuelano, por exemplo, enfrenta sérias dificuldades financeiras, com escassez de alimentos e inflação recorde. A economia local dependia, basicamente, do petróleo e foi fortemente prejudicada pela queda nos preços internacionais da commodity. O enfraquecimento econômico da Venezuela está intrinsecamente ligado ao fato de os Estados Unidos terem se tornado o maior produtor de petróleo do mundo, graças ao óleo de xisto, substituto obtido por meio de técnicas inovadoras.
Em Cuba, economicamente, as expectativas concentram-se na possibilidade de fim do embargo americano, o que, na visão do presidente Raúl Castro, continua sendo o maior obstáculo para retomada de negociações entre os dois países. A decisão, porém, ainda está nas mãos do Congresso dos EUA. No entanto, já há algumas sinalizações de que o comunismo pode não resistir muito tempo no país, referendadas pelo discurso de Obama, que pregou liberdade de expressão e impulso às mudanças. Cuba, nos últimos anos, iniciou processo de abertura econômica, permitindo mais iniciativa privada, o que ajudou a fortalecer o turismo.
A agenda de Obama estende-se ainda até a Argentina, país que representa claramente o desgaste da esquerda. Será recebido pelo presidente Maurício Macri, líder da frente de centro-direita, com linhas ideológicas opostas a sua antecessora Cristina Kirchner. As investidas dos Estados Unidos contra os governos ditos de esquerda podem, porém, ir muito além das agendas oficiais de Obama.
O Brasil, por exemplo, vivencia momento de amplo conflito no meio político, com crescente descontentamento da população contra o atual Governo. Cresce a indignação com os casos de corrupção que envolvem políticos do PT, partido tradicionalmente de esquerda. Mais recentemente, o ex-presidente Lula e a presidente Dilma Rousseff foram incluídos nas suspeitas. Há demonstrativos de que a cooperação dos Estados Unidos na Lava Jato seria muito anterior às descobertas de movimentações financeiras em bancos norte-americanos. Evidência dessa interferência começa ainda com as revelações do WikiLeaks sobre grampos dos EUA contra a presidente e outros petistas. Até que ponto contribuíram para que chegassem a tantas revelações sobre os desvios na Petrobras?
Há, sem dúvida, diretrizes que já se mostram superadas em certos Governos, que não são autossuficientes e esbarram na hora de estabelecer relações comerciais. Mas interferências devem ser vistas com ressalvas.