“Mas os olhos verdes sendo de Diadorim. Meu amor de prata e meu amor de ouro.”
Faz sessenta anos que um livro foi lançado para abalar as estruturas narrativas de nossa literatura e mexer com a sensibilidade de todos os que fazem da palavra o canal das verdadeiras emoções. “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa, publicado em 1956, deve ser lido no silêncio dos espaços abertos com os sentidos em alerta, a fim de que a beleza em seu estado puro atinja cada milímetro de nosso ser e transforme a rotina do dia a dia em instante mágico e único que nunca mais se repetirá com a mesma intensidade.
Acho pertinente abordar o texto sob o ponto de vista da arte impressionista, segundo a qual, através do fluir do tempo e da soma dos diversos momentos de nossa mutável realidade existencial, logramos a integração da vida espiritual. O presente é resultado do passado, daí a necessidade de recordar para reviver, ressuscitar o tempo perdido.
Riobaldo, velho barranqueiro do Rio São Francisco, viaja nos caminhos do passado. Não é uma viagem às claras. É uma travessia difícil e tortuosa em que as coisas tomam contornos diversos do que realmente foram, porque Riobaldo carrega uma neblina dentro de si mesmo. Essa neblina é Diadorim, lembrança que o impede de raciocinar. Mordido por serpentes de mil angústias, ele afirma: “me inventei neste gosto de especular ideias”.
As primeiras oitenta páginas não apresentam sequência lógica. O narrador divaga, sabe que a memória o trai, deforma as coisas, dá-lhe novos aspectos. A narrativa em sua ordem cronológica tem início “quando o dia se abriu” para Riobaldo. De repente descobre o vermelho das flores, a agilidade do voo dos pássaros, a presença do amor em descrições reveladoras do momento, característica do impressionismo.
Diadorim é filha de Joca Ramiro, personificação das virtudes do grande herói medieval. Na realidade é uma donzela, que se veste de homem, para sobreviver à vida rude do cangaço, para a qual atrai Riobaldo, como cúmplice na luta contra o cruel Hermógenes, assassino de Joca Ramiro. A vingança é o alimento de cada gesto seu, o alento com o qual sobrevive, o fogo que a consome.
Para possuir Diadorim Riobaldo faz parte com o diabo. Diadorim mata Hermógenes e é assassinada por ele. Após a vitória, com gosto de travo cruel, Riobaldo recebe arrasadora revelação: Diadorim, o moço de mãos brancas, era o corpo de uma mulher perfeita.
A dor, impossível de ser represada, irrompe em jatos de violência, para depois continuar de forma atemporal em Riobaldo, prisioneiro para todo o sempre de si mesmo. Permanece no fluxo das lembranças e na dúvida sobre a existência do diabo e do pacto que fez com ele.
“Grande Sertão: Veredas” é o exercício de uma beleza feita para ser sentida com a mesma adoração dedicada aos mistérios da religião e da ciência. Nenhum livro tem tanta ligação com as artes plásticas pela mistura de cores, sensações, que transportam o leitor ao mundo de beleza em gestação.
Vale a pena navegar por suas páginas para descobrir o aprendizado da liberdade. Para saber que a travessia da existência é difícil, faz sofrer, mas vale a pena.