Buenos Aires é a bela capital da República Argentina. Quando militava ativamente na advocacia, lá estive em algumas vezes a serviço de pecuaristas do então Mato Grosso, os quais mantinham intercâmbio com produtores argentinos de matrizes e sêmen.
Na última viagem, finda a obrigação para com meus clientes “ganaderos”, resolvi passear pela bela “Paris Sul-Americana”. Peguei um táxi no centro, e pedi ao taxista que me levasse aos recantos interessantes de Buenos Aires.
Depois de andar um bom tempo no meio de um trânsito barulhento e confuso, parou defronte de um sofisticado estabelecimento tipo bar-show, que ostentava na suntuosa fachada um letreiro a gás neon: “El Esquinazo”.
O taxista explicava o histórico dos lugares onde me levava. Naquele local, falou sobre o motivo do letreiro. Disse que havia ali antigamente um ponto de encontro de transeuntes com mundanas, e que cantores e compositores de tango costumavam se reunir ali numa bodega, para bebericar e levar mulheres aos hotéis das proximidades.
A esquina situava-se entre as ruas Corrientes e Carlos Gardel, num trecho abrangente do Bairro Madero. Passava de meia noite e a agitação era grande, apesar do avançado da hora. Era costume na época a vida noturna portenha prolongar-se até altas horas da madrugada.
Falava-se por isto que “a cidade não dormia”. O taxista me convidou a entrar no Esquinazo, e ali observei o requinte do local: mesas guarnecidas com toalhas de linho, copos de cristal sobre as mesas e elegantes candelabros prateados a iluminarem discretamente o ambiente.
Danças típicas de tango aconteciam num tablado protegido por uma romântica penumbra. Surpreendi-me ao ser anunciada a orquestra típica de Carlos di Sarli.
Emocionei-me ao ver de perto o maestro velhinho, com seu óculo preto a lhe cobrir a vista. Ele entrou com seus músicos, cumprimentou o público, sentou-se e colocou sistematicamente o bandoneon no colo, sendo aplaudido freneticamente. Logo a legendária típica começou a tocar tangos tradicionais.
De repente, um tango fez meu coração bater forte: El incêndio. A história de um grande incêndio havido em Buenos Aires, que servira de inspiração a poetas e músicos.
Os bombeiros já haviam terminado o serviço e, quando nada mais havia no prédio sinistrado, ouviram um barulho estranho vindo dos escombros. Correram rapidamente na direção, e viram um cachorro sair com uma boneca na boca.
Enquanto eu ouvia Di Sarli tocar o magistral solo de bandoneon na interpretação do memorável tango, lembrei-me de Antônio Nahas, falecido prematuramente aos vinte e sete anos, radialista e poeta amante do tango, que levava ao ar pela Rádio Cultura de Campo Grande o programa noturno “Colar de tangos e poesias”, no qual o imortal poeta campo-grandense recitava poemas de Colombina, tendo como fundo musical tangos executados pelas legendárias típicas portenhas, levando à emoção seus numerosos ouvintes.
Atualmente, trago na memória aqueles momentos nostálgicos, em que vi e ouvi ao vivo a glamorosa típica de tangos regida pelo exímio maestro – um simples emigrante italiano -.
A partir de então desapareceram as memoráveis típicas portenhas. Buenos Aires perdeu o carisma europeu, que manteve orgulhosamente por quase um século e meio, até a Argentina cair nas garras de governos esquerdistas obedientes à ditadura comunista cubana, os quais destruíram implacavelmente a pujança econômica da grande nação platina.
Atualmente, Buenos Aires possui em seus arredores um espantoso número de favelas - cancro social que não existia na glamorosa Paris Sul-Americana até a metade do Século XX, numa demonstração evidente da incompetência dos governos de esquerda comunista a incrementarem a miséria na América Latina.