Uma luta cada vez mais difícil de vencer, que esbarra na negligência de gestores e na escassez de investimentos na área da segurança
Somente nesta semana foram desarticuladas duas quadrilhas de traficantes que agiam em Mato Grosso do Sul, a partir da fronteira com Paraguai e Bolívia, para enviar drogas a outros estados. Por um lado, há percepção de que os policiais estão agindo para, finalmente, conter a quantidade de entorpecentes que entra diariamente no Brasil. Por outro, temos a sensação de que a criminalidade não dá trégua, os traficantes estão mais ousados e estamos muito distantes ainda do aparato que seria necessário para “fechar” a fronteira para os crimes. Uma luta cada vez mais difícil de vencer, que esbarra na negligência de gestores e na escassez de investimentos na área da segurança.
Impressiona a estrutura das quadrilhas e toda organização para gerenciamento do tráfico, com atribuições definidas a todos os integrantes. O grupo desarticulado pelo Gaeco do Rio de Janeiro, na quinta-feira, contava com família de Coronel Sapucaia como principal fornecedora de drogas. Traficante organizava desde o cultivo, colheita, armazenamento e transporte dos entorpecentes. Para isso, contava com auxílio dos pais, com atribuições definidas no crime. Trata-se da velha prática amplamente divulgada: a fonte da cocaína e da maconha enviada aos traficantes cariocas estava nas cidades fronteiriças, com forte articulação em Mato Grosso do Sul.
Outro grupo detido esta semana contava com integrantes em São Paulo, Paraná e Ceará, além de Mato Grosso do Sul. A droga era transportada em carretas. As recentes prisões comprovam, portanto, como seria benéfico para todo o País se o governo federal direcionasse mais investimentos para barrar a entrada de produtos ilícitos por Mato Grosso do Sul. Ainda neste ano, o Correio do Estado divulgou entrevista em que o secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, cobrou que a segurança na região fronteiriça fosse tratada com prioridade, com investimentos maciços em Mato Grosso do Sul. A cada operação essa necessidade de combate aos crimes em sua origem fica ainda mais explícita.
É preciso ampliar efetivo, aumentar número de viaturas, aperfeiçoar tecnologia, ter mais fiscalização e aprofundar investigações para que, enfim, a fronteira não continue escancarada. Por fim, é preciso também que os criminosos sejam condenados pelos crimes que cometeram, incluindo os chefes de quadrilhas e não apenas aqueles que foram flagrados transportando a droga a mando das grandes organizações. Recentemente, foi condenado piloto e ocupante de avião que transportavam 350 quilos de pasta base de cocaína. A sentença em dez anos e dois meses foi dada menos de quatro meses depois, celeridade que precisa ser constantemente repetida.
Há, portanto, conjunto de fatores que precisam ser aperfeiçoados para que o tráfico de maconha e cocaína não continue a fazer tantas vítimas e causar tantos danos em nosso País. Ontem mesmo, um dos prejuízos foi comentado pelo promotor Sérgio Maluf, que entregou o cargo de secretário de Segurança a José Carlos Barbosa, o Barbosinha. Com remanejamento de policiais para a fronteira, o efetivo foi reduzido na Capital e os assaltos aumentaram. A situação começa a ser revertida com novos policiais chamados. Mato Grosso do Sul, infelizmente, ainda arca com a maior parcela dessa conta, ignorada pelo governo federal. São prisões que se repetem, mas esbarram num ciclo da criminalidade que está longe de terminar.