Tenho amigos que me presenteiam com livros, seja para sempre (e então eles ocupam um lugar especial na minha estante) ou por algum tempo, o suficiente para que eu me agarre às mesmas palavras às quais eles se agarraram nas suas leituras.
Porque as palavras foram feitas para serem agarradas, para serem levadas a sério. Hoje, quando nosso quotidiano está resumido a poucas, ocas e desgastadas palavras, um livro é rio, é mar, é oceano a nos levar ao vento certo. Tenho comigo “Os Armários da Noite”, da poeta portuguesa Alice Vieira, que pode “nos” dizer (porque a página está marcada com um lembretezinho verde): o perigo de acumular silêncios em //corredores vazios ou // qualquer outro vício que a // vida nos traz // é que depois as palavras // morrem à toa // sem flores sem cânticos sem // missa de sétimo dia// e ninguém sabe para que serviram.
Fico, assim, na dúvida entre acumular silêncios, falar com propriedade ou, simplesmente, sair falando à toa, sem me importar com o sentido das minhas palavras na vida das outras pessoas.
Hoje, fala-se muito em retórica e, talvez, fosse interessante um retorno ao velho e sempre bom Aristóteles para aprender, de fato, a fazer discursos persuasivos e benfeitos. Dizem que os políticos são bons de retórica, mas eles não são! São de uma pobreza ímpar nos seus argumentos. Não têm habilidade para elaborar um discurso assentado ao mesmo tempo na forma persuasiva e sobre questões prováveis e controversas.
Não se utilizam de provas lógicas, mas apenas de provas afetivas, pois querem persuadir pelo coração, fazendo de conta que têm intimidade com seus ouvintes. Querem seduzir, encantar, mas são falaciosos. Na maioria das vezes, dão verdadeiras estocadas na língua portuguesa, detonando todos os plurais, além de empregar palavras completamente fora de contexto e, portanto, sem sentido. Pode ser até que a minha visão de Retórica seja mais antiga do que a clássica, mas ando meio saturada de tanta esperteza, de tantos raciocínios que só apresentam a primeira premissa e já partem para a conclusão.
Tudo bem que para o senso comum “Cala boca já morreu! Quem manda na minha boca sou eu!” esses oradores não precisam de argumentos de autoridade, porque se acham autoridades. Em quê? São autores de quê?
Dizem que quando começamos a fazer listas é sinal de Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), mas ando me rendendo. É só abrir os jornais, as revistas, entrar nas redes sociais e vamos encontrando uma repetição de palavras ocas, porque foram esvaziadas de sentido ao serem empregadas a torto e a direito.
Lembro-me de uma crônica antiga de Lourenço Diaféria que discutia a propriedade ou não das palavras em língua portuguesa e, lá pelas tantas, o cronista entrava com um (contro)verso de Vinícius de Morais para explicar e que dizia assim: Munevada glimou vestassudente! Qual o sentido? Não sei até hoje, mas a frase tem sujeito, tem verbo e tem complemento. Dá, mais ou menos, a mesma sensação dos mestres da retórica política brasileira atual. Prefiro correr o risco de acumular silêncios!