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OPINIÃO

Luiz Fernando Mirault: "Sai, vovô!"

Físico e Administrador

Redação

26/04/2016 - 01h00
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Sentado à mesa, almoçando, fui intimado a levantar-me por meio um brado retumbante – “SAI VOVÔ”. Isto dito por minha neta de dois anos. Retruquei fazendo-a ver que aquele lugar e a cadeira eram do vovô, e questionei do por que eu deveria sair. “Sai vovô” acompanhado do “Eu quero” e “é minha” (cadeira) e não me deixou alternativa senão a troca de lugar. 

De joelhos na cadeira, a altura da mesa, ela espalhou com as gordas mãozinhas algumas pedras de gelo, derretendo-as sobre a toalha, espalhando “no molhado” a farinha de mandioca!
Que lambança você está fazendo! Lambança não vovô, bagunça! Da mesma maneira que protagonizou o episódio, saiu de cena, de fininho, em direção ao quarto. Sua quietude e seu silencio me fizeram perguntar o que ela ali estava fazendo. Bagunça vovô!

Esses preciosos momentos vividos fazem parte do desenvolvimento natural da cognitividade da criança, e se traduzem pelo que conceituamos de autonomia, que se refere à liberdade do ser humano em administrar sua vida livremente, se utilizando de ações racionais de livre escolha. É nessa fase que a criança treina a partir de suas incursões, os princípios de liberdade, independência e principalmente sua auto-suficiência, questionando, exigindo, praticando tentativas e submetendo às considerações dos adultos (sociedade). 
A partir da construção da identidade, isto é o reconhecimento da existência do “eu” em relação ao seu semelhante e da autonomia, ou seja, o reconhecimento de sua individualidade com suas descobertas, conquistas, e percepção dos seus limites, da infância a adolescência, o ser humano se completa com que se chama cidadania. A cidadania se refere aos direitos e deveres de uma pessoa em relação à sociedade em que está inserida, e pressupõe que o indivíduo se identifique com os outros, que se manifeste livremente desde que tenha princípios e valores éticos para o reconhecimento, convívio, respeito e harmonização das diferenças, sendo importante a “amorização”, a cooperação, a solidariedade, a compreensão e o respeito mútuo. 

Somente após passarmos pelo crivo dessas três fases de desenvolvimento seríamos a princípio capazes de entendermos a democracia tão falada e propalada quanto não compreendida, que se trata de um modelo de gestão sócio-político estruturado para proteção dos direitos humanos fundamentais, e da garantia das liberdades individuais, como as liberdades de expressão, de religião, a proteção legal, da participação na vida política, econômica, e cultural da sociedade e respeito às autoridades constituídas. Para exercê-la de fato necessitaríamos ainda da razão, a capacidade de pensamento dedutivo baseado em abstrações e argumentações honestas que dão elementos para escolha de decisões sobre ações ou opiniões na análise ou enfrentamento de situações que exigem o senso crítico a partir de algumas certezas e a lógica referenciada ao pensamento humano que nos permite discernir entre o adequado e inadequado para certo momento. 
No entanto, para sua plenitude deveríamos descartar as crenças e os medos que foram adquiridos por meio de informações erradas, irracionalmente embotando a inteligência, por falta do conhecimento (a ignorância) ou indução de ideologias perniciosas, produzindo sentimentos de negatividade e frustrações deflagrando por vezes atitudes hostis, negativas ou agressivas em relação a um determinado grupo, o que se caracteriza como preconceito. Daí a discriminação ou segregação seria apenas a exacerbação dessas idiocrasias.

Aqui passo a fazer uma reflexão sobre as exigências infantis intempestivas e despropositadas e o momento atual de reivindicações inconsistentes de vontades difusas. Sair da cadeira para que e por quê? Para fazer lambança, bagunça, ou apenas para satisfazer um querer individual? Dar vazão a um preconceito formatado a partir de crenças e medos, compartilhado pela não identidade de indivíduos que se julgam superiores aos seus semelhantes, e que porventura reclamam de direitos e deveres sem, no entanto reconhecerem os princípios de cidadania, colocando assim em risco a democracia, fomentando diariamente a cizânia e a segregação. Não! Ainda compreendo minha neta embora tenha muito a aprender até entender que reivindicações olocráticas estéreis não levam a lugar nenhum exceto satisfazer o “ego”. 
Na porta do quarto externei minha previsão: “Quem vai arrumar essa bagunça? – o vovô!”, uma auto-resposta própria de quem se preocupa com nada de coisa alguma além da ponta do nariz, afinal ela tem apenas dois anos!

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