Não tão simples como o título de um filme, preciso falar sobre aquilo que me incomodou, em vários sentidos, nos últimos tempos. Vou começar pelo grande balaio de gatos que o Congresso Nacional confirmou ser. Andava desconfiada. Na minha última crônica, tinha falado sobre a pobreza do discurso político assentado em argumentos patéticos.
Acredito que a votação do impedimento da presidente Dilma Rousseff pode demonstrar, para além do esperado, o que eu quis dizer. “Uma lástima!”, diria minha mãe, que adorava expressões mais blasées.
Muito além da lástima, no entanto, foi o voto do deputado, cujo nome não merece nem ser pronunciado, quanto mais escrito (toc-toc-toc na madeira), que trouxe à tona o coronel Ustra, figura das mais abomináveis da história ainda recente e ressentida do Brasil. Dá até para considerar que, se por um lado foi bom, porque acendeu a luz vermelha do perigo que seria a volta de uma ditadura, por outro, o espetáculo a que assistimos foi além do escárnio, foi uma ofensa.
A sombra desse coronel suscitou o depoimento de uma amiga muito querida, colega da UFMS, que relatou, na mídia eletrônica, a experiência desumana da tortura de que foi vítima sob o comando de Ustra. Durante um bom tempo, Anne-Marie (é este o nome dela para mim) conversou comigo sobre a possibilidade de escrever sua história e qual seria a maneira mais efetiva de fazê-lo. Não deu.
Ela ainda não conseguia falar sobre. Na verdade, não acho que alguém fique “pronto” para contar uma história assim, então paramos de conversar sobre o assunto. Quando me deparei com o depoimento dela postado por um amigo no Facebook, fiquei pasma! Ao mesmo tempo compreendi que teria que ser assim mesmo, como um susto, porém não menos contundente e necessário, infinitamente necessário. A coragem de Ana tão grande quanto o seu sorriso, tão grande quanto a defesa de suas ideias até hoje.
Sem pieguismo, fiquei emocionada quando li e estou enquanto escrevo. Bravo!!! Uma outra história que me tirou do sério foi a do anacronismo dos qualificativos que uma revista destinou à mulher do vice-presidente: bela, recatada e do lar. De onde tiraram isso?
Discurso do centro cívico? Acho que até a moça, assim qualificada, deve ter ficado revoltada. Não se pode negar que ela é bonita e discreta. Agora, re-ca-ta-da??? O que vem a ser isso? Nem no discurso religioso se ouve mais essa palavra. As reações nas redes sociais foram das mais enfurecidas às mais engraçadas.
O verso de oito sílabas rimou com uma centena de outros, que não deixaram de demonstrar que nós, mulheres, temos papéis muito mais produtivos e, principalmente, outras escolhas. Vaso de flor, só pra enfeitar, a gente compra no supermercado. Ser mulher é outra coisa. Enfim, “do lar” são todas as mulheres e os homens que escolheram habitar um espaço comum, onde as funções e os papéis passam por trocas sempre que necessário. Um lugar de encontros, de crescimento e de descanso. Um espaço de acolhimento, não uma profissão. Preciso falar mais, mas o espaço da crônica acabou..