A população, além de ser penalizada pelos desvios de verba pública, ainda sofre com o trabalho malfeito.
Tudo indica que há muito mais sujeira no “mar de lama”, que resultou em 15 prisões anteontem, durante a segunda fase da Operação Lama Asfáltica, desencadeada pela Polícia Federal. Está evidente a intenção dos investigadores em tentar oferecer aos detidos o recurso da delação premiada, em que os denunciados fazem acordo com a Justiça para ter parte da pena reduzida em troca de informações relevantes ao processo. Afinal, desta vez, as ações foram ainda mais pesadas contra os investigados. Familiares também foram presos, a exemplo das três filhas do empresário João Amorim, dono da Proteco Construções. Ele já tinha sido detido na primeira fase da Lama, quando foi apontado como um dos principais participantes do esquema de desvios de recursos de obras públicas.
O cerco está se fechando. A força-tarefa tem em mãos contratos que somam R$ 2 bilhões em recursos, referentes aos anos de 2012 a 2014, entre Governo e empresas. Entretanto, até agora, foram analisados documentos referentes a R$ 195 milhões, nos quais foram detectados os prejuízos de R$ 43,1 milhões. Ou seja, há grandes possibilidades de que mais irregularidades sejam detectadas nesse trabalho que ainda precisa ser concluído pelos investigadores. A delação premiada - recurso amplamente utilizado durante o processo da Lava Jato - poderia contribuir para apontar mais envolvidos no desvio de dinheiro e revelar detalhes dos gastos milionários feitos em obras precárias, amparadas em supostos acordos que incluiriam superfaturamento e verbas desviadas.
A despeito do preconizado pela legislação, as regras que deveriam impedir as ilegalidades em contratos são constantemente burladas. Editais de licitação são direcionados com critérios que favorecem determinada empresa, aditivos - que deveriam ser feitos somente excepcionalmente - tornaram-se praxe nos contratos, e até projetos são alterados para “facilitar” a vida das empreiteiras e, assim, sobrar mais dinheiro. Esse tipo de irregularidade tem sido frequente em muitas construções. No esquema da Lama Asfáltica, porém, foram encontradas irregularidades ainda mais “gritantes”, como uma mesma empresa cuidando, ao mesmo tempo, de manutenção, tapa-buraco e pavimentação no mesmo trecho de rodovia - o que levantou as primeiras suspeitas dos investigadores.
A população, além de ser penalizada pelos desvios de verba pública, ainda sofre com o trabalho malfeito. Basta circular pela MS-040, que liga Campo Grande a Santa Rita do Pardo, ou pela MS-436, entre Camapuã e Figueirão, para constatar que o pavimento foi, literalmente, transformado em lama. Buracos tomaram conta de vias recém-inauguradas. Algo que, por si só, já motivaria abrir investigação.
Como resultado de todo esse esquema, descobriu-se a lavagem de dinheiro, com a rede de familiares e outras pessoas que eram “laranjas” para diversos bens adquiridos, principalmente fazendas. Na mira, estão mais de 67 mil hectares, incluindo um condomínio de propriedades rurais. Impressiona que essas dimensões já impressionantes de ilegalidades possam ser ainda maiores. Acompanhamos os próximos capítulos.