Se a vida é insuficiente, o autor inventa. Talvez esta seja a máxima para a compreensão daquilo que lemos. O pior é tentar entender a realidade: a cidade cheia de buracos talvez seja a metáfora principal do sentimento que, por ora, me move.
Buracos sem fim nas ruas principais e naquelas dos bairros. Nas antigas e nas novas. Talvez seja melhor, para escrever uma crônica, seguir alguns conselhos de Drummond a um jovem escritor, ainda que eu não seja tão jovem assim. Mas o espírito... Ah! O espírito não envelhece!
Então, vejamos: 1. “Só escreva se não puder deixar de fazê-lo. E sempre se pode deixar”. Não posso! Tenho compromisso com o jornal e, ademais, escrever é sempre bom; o difícil exercício de ter a mente disponível para organizar as ideias e filtrá-las em palavras é sempre motivador. 2. “Ao escrever, não pense que vai arrombar as portas do mistério do mundo. Não arrombará nada. Os melhores escritores conseguem apenas reforçá-lo, e não exija de si tamanha proeza”. Se a humildade permitiu ao poeta tamanho “Sentimento do mundo”, acho que seria hora de refletir também sobre a vaidade, inclusive aquela que faz com que tantos escrevam diários com a pretensão de serem lidos ainda com vida e aplaudidos no post mortem. Como diz um dos meus mestres, “quer elogio, mostra para mãe”.
3. “Se ficar indeciso entre dois adjetivos, jogue fora ambos, e use o substantivo”. Já imaginou se a moda pega? Seria o máximo! Mas desconfio que muita gente ia ficar muda para sempre, graças a Deus! Porque há dois tipos de adjetivos, os essenciais e os florais, e um sempre vai excluir o outro; então, vida longa ao substantivo!
4. “Não acredite em originalidade, é claro. Mas não vá acreditar tampouco na banalidade, que é a originalidade de todo mundo”. Este conselho merece reflexão. O banal sempre foi fonte para as artes, o próprio Drummond bebeu e se embriagou, mas não perdeu o bonde nem a esperança. O difícil é deixar de repetir metáforas cansadas, criar a partir do que já existe e está ao alcance da mão e dos olhos. Manuel Bandeira disse estar farto do lirismo daqueles poetas que vão ao dicionário para averiguar o cunho vernáculo de um vocábulo. Algo que só pode ser superado pelo conselho número 5 de Drummond: “Leia muito e esqueça o mais que puder”. Ler e esquecer que leu vai permitir a desleitura com qualidade, a invenção a partir do caos, a aceitação sem culpa da influência, o diálogo sempre bem-vindo com a tradição e a amizade literária que, ao mesmo tempo, dignifica o escritor também como leitor. Se o escritor não lê, como pode esperar ser lido? Rua (sem buracos) de mão dupla.
6. “Anote as ideias que lhe vierem na rua, para evitar desenvolvê-las. O acaso é mau conselheiro”. Não sei se concordo. Diretamente, as ideias que vêm ao acaso não podem mesmo ser utilizadas, mas depois de reflexão e escolhas podem render bons textos, podem funcionar como gatilhos para a escritura. Vou pular os conselhos número sete e oito, que dizem respeito a elogios, senão vou ficar sem espaço.
9. “Não responda a ataques de quem não tem categoria literária: seria pregar rabo em nambu. E se o atacante tiver categoria, não ataca, pois tem mais o que fazer”. Delícia de conselho! Sempre melhor ter mais o que fazer do que perder tempo com discussões estéreis, às vezes fundadas sobre pontos de vista contrários e indefensáveis em relação ao proposto ou, o que pode ser muito pior, sobre sentimentos pessoais. E vou parar no número 10: “Acha que sua infância foi maravilhosa e merece ser lembrada a todo momento em seus escritos? Seus companheiros de infância aí estão, e têm opinião diversa”. É pra matar, não é? No entanto, sempre é bom ouvir quem tem a vida passada a limpo como o melhor da poesia brasileira.