Não sou o único professor de História que assistiu às instalações de dois processos de impedimentos contra presidentes da república pelo Congresso Nacional, tomando posição em ambos os casos. Embora, também, não tenha votado no ex-presidente Fernando Collor, critiquei o julgamento sumário a que foi submetido. Diante de tanta rapidez, lembrei de uma passagem do livro clássico Declínio e Queda do Império Romano, publicado em seis volumes, entre 1776 e 1778, pelo historiador inglês Edward Gibbon.
Comparei na época, perante meus alunos, o principal interessado, Luis Inácio Lula da Silva, com o senador romano Didius Iulianus, pois ambos demonstraram, nas respectivas circunstâncias, completa cegueira motivada pela ambição de poder. Gibbon revela que o célebre senador romano gastara imensa fortuna para comprar dos guardas pretorianos o cargo de imperador, depois que aqueles acabaram de assassinar o ocupante precedente que já não me recordo o nome.
A narrativa magistral transcorre rapidamente. O imperador recém empossado mal teve tempo de mastigar a comida do farto jantar que havia sido preparado para o seu predecessor, quando foi também assassinado. O ex-deputado Lula está tendo mais sorte do que o senador Didius. Passaram-se treze anos para ser apeado do poder, felizmente, graças ao estado de direito e a constituição cidadã de 1988 que ele e o seu partido se negaram a assinar. Pode jantar todos os dias em casa, salvo se a Justiça Federal resolver hospedá-lo.
Entre as causas da derrocada do governo petista estão as graves denúncias de corrupção. O culto ao “deus da honestidade” foi abolido. Aos poucos, a economia entrou em colapso. Não precisa ser um gênio como Lord Keynes para apontar o descalabro da economia como principal fator de desestabilização do governo de sua sucessora.
Devo registrar que tudo tem precedentes. Quando o Império Romano do Ocidente se desestruturou, o cargo dos imperadores de Roma já se dividira em dois poderes. Esse poder dual se manteve até Napoleão nocautear o Sacro Império Romano Germânico, mas foi Montesquieu que apresentou uma visão pioneira de divisão tripla do poder. O mundo político que vivemos até agora foi concebido por essa imagem ideal do grande gênio francês. Pelas próprias experiências que estamos assistindo aqui e alhures, podemos constatar que o conceito está bastante gasto e talvez precise ser ajustado aos novos tempos. “Quem diria! A própria virtude precisa de limites...”, costumava dizer Montesquieu. Ele foi de fato um gênio.