Impressiona e indigna saber que o descaso dos políticos com a gestão do dinheiro público permanece mesmo depois das graves consequências do descontrole de gastos.
Em menos de um mês, o governo do presidente interino Michel Temer já acumula sucessivas crises, decorrentes de ações completamente incoerentes ao que foi prometido no dia de sua posse. A mais recente discrepância, refere-se à criação de 14,4 mil cargos federais, aprovada em projeto de lei pela Câmara dos Deputados. No dia que assumiu, Temer prometeu cortar quatro mil cargos comissionados, quantidade irrisória diante do excessivo descontrole de gastos da máquina pública. No dia anterior, os deputados aprovaram reajustes salariais para servidores dos poderes Executivo, Legislativo, Judiciário e para a Procuradoria-Geral da República, que terão impacto de R$ 58 bilhões até 2019 nas contas públicas. Na ocasião, Temer aproveitou para pedir aplausos ao Congresso. Ou seja, a ideia de promover contenção de gastos em momento de recessão econômica ficou só no discurso.
Quem pagará a conta de todas essas novas despesas? Os brasileiros já castigados pelos equívocos cometidos pela gestão de Dilma Rousseff na condução da política econômica e pelos milhões que foram surrupiados da Petrobras nos esquemas de corrupção, desmascarados pela Lava Jato. Temos um contigente de 11,4 milhões de desempregado, inflação alta, inadimplência recorde e investimentos estagnados. Indústrias e estabelecimentos comerciais fecham as portas diante da retração do consumo das famílias, que viram suas rendas caírem consideravelmente. Muitos funcionários acabaram sem aumentos salariais e houve casos de estados que não conseguiram manter os pagamentos dos servidores em dia. Esse cenário é conhecido por todos os cidadãos, mas parece não ter sido suficiente para convencer a equipe de Temer a controlar as despesas e, assim, conseguir equilibrar as contas públicas.
Impressiona e indigna saber que o descaso dos políticos com a gestão do dinheiro público permanece mesmo depois das graves consequências do descontrole de gastos. Inadimissível aceitar a justificativa de que os reajustes estavam previstos no Orçamento, que deve fechar com rombo de R$ 170 bilhões. maior da história. Cabe lembrar que esse deficit foi aprovado pelo Congresso. Não daria para alegar desconhecimento. Apesar que, tivemos outra recente comprovação de desleixo com a inexplicável aprovação da criação de 14 mil cargos na Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), revelada pela Folha de S. Paulo. O líder do PMDB na Câmara, deputado Baleia Rossi (SP) disse que o Senado vai revisar ou Temer vetará a “pauta-bomba”, que não foi percebida pelos parlamentares.
Diante dos enormes desafios que precisam ser superados para que o Brasil retome o crescimento econômico, a atual equipe vem mostrando despreparo, descrédito e instabilidade. O Governo Temer treme em seus deslizes. Errou em duas áreas consideradas cruciais: vem demonstrando falhas graves na tentativa de melhorar as finanças e mostrou-se ineficaz no combate à corrupção ao nomear ministros envolvidos em investigações. Dois já caíram, inclusive o que iria comandar a pasta da Transparência. Há muito ainda a ser aperfeiçoado para que os brasileiros não continuem a ser sacrificados pela incapacidade dos gestores.