O pensamento filosófico em geral é bastante conhecido por seu estilo “excêntrico” de exposição, termos complexos, raciocínios intermináveis, argumentos de difícil compreensão comporiam a sua “excentricidade”. Diz-se dos filósofos que são criaturas pouco afeitas ao “mundo prático”, que habitam permanentemente “o mundo das ideias”, que são, enfim, distantes da realidade objetiva, “a vida como ela é”.
Nada disso, é claro, corresponde precisamente ao que é a atividade filosófica. A complexidade de termos, a reflexão demorada, porque intensa e rigorosa, a dificuldade de sua argumentação não são meras extravagâncias retóricas; o pensamento filosófico é “excêntrico” no sentido preciso de ser um pensar “fora do centro”, que descentraliza as ideias, extravia o sentido, rompe com o pensamento padrão, apático, rápido e irrefletido do cotidiano desesperado da vida. Isso afasta o filósofo do “mundo prático”? Mergulha-o no mundo da abstração? Distancia-o da realidade crua da vida?
Não. A excentricidade e abstração filosóficas são na verdade o “dedo na ferida” do real; justamente aí, onde o pensamento domesticado se torna autoritário e ideológico, o pensamento filosófico cultiva e estimula a liberdade da crítica numa busca irresoluta da verdade, que não é outra coisa, afinal, senão justiça.
Sim, justiça. Esta, que escandalosamente tem faltado, desde aqueles que deveriam preservá-la, o judiciário, renová-la, o legislativo, e promovê-la, o executivo, a aqueles que deveriam fazê-la resistir, a sociedade civil, suas entidades, movimentos, eu e você. Não estou certo de que nós, sociedade brasileira, tenhamos nos dado conta da real dimensão da crise de vínculo social na qual estamos envolvidos; fosse assim, teríamos já reagido. Quando imagens de um estupro coletivo e áudios de um golpe político encontram ainda justificativas, e as panelas não soam, as ruas não gritam; então é sinal de que a violência atingiu seu máximo nível cultural, o pensamento.
É, pois, sobretudo contra a violência ao pensamento que a filosofia se impõe, é contra toda e qualquer espécie de terrorismo das ideias que o filósofo luta, inclusive contra aquele que ele mesmo pode cometer! E quanto maior for a agressão à inteligência, maior é a necessidade da reflexão filosófica.
Se na selvageria do pensar, o conhecimento é uma tragédia; melhor conhecer no trágico, que viver na farsa. Há momentos cruciais da história em que não cabem tergiversações: ou vamos às ruas e defendemos com garra nosso frágil vínculo social, ou assistiremos bovinamente de nossas casas, investidos de nossas pseudofilosofias, a um grande espetáculo sobre nós mesmos, o de nossa autocondenação política e cultural.