Na prática, ocorre apenas uma transferência de endereço e, consequentemente, de problemas. De nada adiantam prédios bonitos se não houver médicos...
Bonito por fora, vazio por dentro. A frase estava em cartaz escrito por acadêmico da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), que participou de protesto ontem para cobrar mais estrutura para o curso de Medicina. Essa reivindicação remete à realidade de vários prédios públicos entregues como benefícios à população, mas que acabam tornando-se “presentes de grego” caso não haja a previsão de investimentos para melhorar o atendimento. Afinal, para que a população possa usufruir de novos postosde saúde, Centros de Educação Infantil, universidades ou hospitais é indispensável a contratação de profissionais e compra de equipamentos para garantir o efetivo funcionamento dos novos espaços.
O ideal seria que na previsão orçamentária já constasse os recursos que serão necessários para equipamentos, móveis e contratações. Estudantes esperaram anos pelo câmpus da UEMS em Campo Grande. Durante 15 anos, foram usadas salas alternativas em escolas estaduais. Não há dúvidas que se trata de investimento necessário. Na construção dos sete blocos da universidade, os gastos chegaram a R$ 47 milhões e a novidade foi a implantação do curso de Medicina. Entretanto, os cálculos dos investimentos - resultantes de empréstimo feito junto ao BNDES - precisariam ter contemplado também a estruturação necessária para garantir formação de qualidade aos novos acadêmicos, o que inclui materiais, laboratórios, livros e mais professsores. Papel que precisará ser assumido pela atual gestão estadual, que herdou as parcelas do empréstimo já previstas na dotação orçamentária, mas também a missão de garantir estrutura ao novo curso.
Não se trata de caso isolado. Temos vários prédios prontos, inaugurados com toda pompa, mas que não atendem às expectativas da população justamente porque os investimentos limitam-se às obras. Exemplo mais contudente são as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), executadas com recursos federais. Na prática, ocorre apenas uma transferência de endereço e, consequentemente, de problemas. De nada adiantam prédios bonitos se não houver médicos para atender os pacientes. Os recursos que, inicialmente, representam benefícios, acabam transformando-se em “bomba” para os gestores, que não contam com dinheiro suficiente para comprar novos equipamentos e nem contratar mais profissionais. Ainda mais em tempos de crise.
Hoje, na saúde pública da Capital, falta o básico: desde seringas até medicamentos. Utopia acreditar que o recurso do Sistema Único de Saúde (SUS) será suficiente para cobrir os procedimentos executados. Soma-se a essa deficiência os problemas de gestão e completa desorganização. a exemplo do recente episódio do sumiço de vacinas contra gripe. Na educação, são constantes os apelos por vagas em creches, mas a prefeitura certamente terá dificuldades para contratar mais profissionais diante dos limites estourados de comprometimento da receita para pagamento de pessoal.
Para uma obra ser realmente completa, é preciso contemplar todo o investimento que será necessário para evitar que o dinheiro público acabe aplicado em estruturas quase obsoletas. Prédios bonitos são importantes, mas podem se transformar em “presentes de grego” para futuros gestores e até para a população se não for contabilizado recurso para mantê-los.