Aquele que é submetido ao poder de outrem, contra sua vontade, sofrendo ameaças de algo a ser realizado, torna-se um refém. Somos realmente humanos e racionais? Nenhuma coisa nem outra, bastando observar o absurdo de nos vangloriarmos criados à imagem e semelhança de Deus, numa mania de grandeza e vaidade, em que a ignorância, a insensatez e as irracionalidades imperam, embrutecendo o ser humano, tornando-o ignóbil, aviltante, inferior aos animais considerados irracionais.
A família, no seu automóvel, é surpreendida com tiros disparados por bandidos, e o bebê, agasalhado no banco traseiro, é atingido e morre. O idoso, esfaqueado e sangrando, vê sua bicicleta ser levada por um marginal. No ponto de ônibus, a jovem é agredida com várias estocadas de estilete, até a morte. Em pleno dia, adolescente chega da escola e, na porta da sua casa, é rendido por criminoso e obrigado a entregar seus pertences, incluindo o celular, objeto de cobiça do delinquente, que, não satisfeito, assassina o jovem. A menina é agredida e estuprada por vários marginais e se vê humilhada, tendo de sobreviver com dúvidas causadas por turbilhão de sarcasmos. Filhos que matam os pais. Pai violentando filhas. Neto mata a avó e pega míseros cinquenta reais para comprar drogas. Caminhoneiro na sua labuta diária torna-se impotente nas mãos de marginais que lhe roubam o veículo, a carga e a vida. À luz do dia, assaltos a bancos, empresas, escritórios, farmácias, hotéis, hospitais, cemitérios, postos de combustíveis, organizações militares e policiais.
Fronteiras abertas para o tráfico de entorpecentes, de pessoas, de armamentos, de órgãos. Marido agride e mata a esposa e vice e versa. Corrupção, concussão, peculato envolvendo parlamentares e integrantes da mais alta cúpula do País. Assassinatos nos presídios e fora deles, a mando de “chefões”. Polícia matando. Policiais vítimas de assassinatos. Tiroteios ceifando vidas em consequência de bala perdida. A juventude procurando nas drogas não se sabe bem o que, e, para tanto, se mata e se morre. Brigas, mortes em estádios de futebol. Latrocínio pululando em todo o território nacional. Se fosse para detalhar todos... Qual o futuro deste país onde até crianças assaltam e metem medo?
Não é estado de guerra nem policialesco. É a impunidade e o descaso consagrando ações delituosas, massageando o ego do meliante recolhido nas penitenciárias, ou não, e que pousa de protetor de comunidades carentes por inércia do poder público. A que ponto chegou! O que fazer? Rezar. Não há ações concretas para minimizar a situação caótica, a não ser reunião inócua de secretários de segurança em Brasília, para discutir o sexo dos anjos. Os governos, federal e estadual, com raríssimas exceções (e põe raríssima nisso), relegaram e relegam a segurança pública ao último patamar. Mas a cobrança da “fatura” (impunidade e descaso) chega; e chegou exigindo a vida como pagamento. Não se pode culpar somente a organização policial por todas essas mazelas; até porque, o verdadeiro profissional de polícia está entre a cruz e a espada, ou morre ou mata. Seu trabalho não está escudado nem circundado por ações governamentais, no âmbito social, que podem reduzir a violência.
O policial carece de boa formação e qualificação. A polícia brasileira está na idade da pedra, em pleno século XXI, alicerçada na elitização da maioria de seus integrantes e na retórica de intelectualidade “teórica” que não trazem benefícios às pessoas. A cantilena de que a polícia age nos efeitos e não nas causas determinantes do crime bem evidencia o despreparo. Despreza-se o policiamento preventivo e se desconhece, propositadamente, o crime organizado. E o Brasil sufocado por ações criminosas deixa a população refém dos desejos dos delinquentes.