A população brasileira continua acompanhando atentamente o desenrolar das várias fases da Operação Lava Jato, que está mudando a face mais sórdida que a nossa política foi capaz de produzir. A luta entre a verdade e a mentira estabelecidas pelos contextos das delações premiadas e que apuram a roubalheira, em todas as esferas de governo, está produzindo uma onda de indignação e revolta no seio da nossa população.
O embrião a respeito da decantada verdade está no interrogatório de Cristo diante de Pilatos. Quando o livro sagrado dos cristãos se silencia a respeito do tema, o que temos de mais evidente é a abertura irremediável de um vácuo nas relações entre as pessoas, com reflexos imediatos no âmbito das investigações criminais. A partir daquele momento, a verdade se transformou em algo de natureza eminentemente filosófica. O mundo civilizado então fez expulsar dos seus códigos criminais o princípio da certeza legal, sob o argumento de que não há provas infalíveis, nem mesmo porque qualquer delas pode ser imposta como definitiva.
E consagrou o princípio do livre convencimento do juiz para formar sua opinião. Mas essas decisões não podem brotar do seu puro capricho nem se distanciar da prova produzida. Tudo precisa ser fundamentado. É essa a realidade que estamos vivendo no curso da Operação Lava Jato. Para cada acusação de natureza grave que flui dos lábios dos delatores, os acusados, sem exceção, invocam em suas defesas a negativa de participação nesses atos criminosos. Até os delatores, para receberem os benefícios da Justiça, não conseguem provar o que entendem e sabem como verdade. Transformaram-nos em uma República de mentirosos. Uma verdadeira loucura.
Não é possível que isso esteja acontecendo em nosso País. O nosso povo não merece essa atrocidade. Agora é o presidente interino, Michel Temer, que está negando o seu envolvimento com suposto ato criminoso evidenciado pelo seu delator. Não poderia ser diferente a sua ação. A música já está escolhida. A dança já tem o seu ritmo estabelecido. Por isso, a descrença é grande.
Aliás, sobre esse tema, o então chefe de Estado e de Governo da França, Charles de Gaulle, disse, por ocasião da visita que nos fez, em épocas recuadas, que o nosso País não é sério. Certamente o líder francês não conversou com os nossos empresários; com os nossos professores; com os nossos comerciantes; com os nossos produtores rurais; com as pessoas, enfim, que empurram o nosso desenvolvimento escorado em uma ocupação lícita e uma atividade honesta. Se isso tivesse ocorrido, sua impressão seria outra. Mas não foi o que aconteceu.
Conversou apenas com os governantes que sempre dispensaram às nossas crianças o pior dos destinos; que maltrataram os nossos idosos; que negaram trabalho aos nossos chefes de família e negaram também saúde de qualidade para o conjunto da nossa população; que jogaram a nossa segurança para um abismo medonho. A frase do estadista francês, já de saudosa memória, mostra que não melhoramos nada. Só pioramos.
Uma pena que essa forma nefasta de governar o País, aliada à loucura desenfreada daqueles que se inclinam enfurecidamente pelo dinheiro, ainda continua. Nesse contexto, a grandeza do bem comum, representado pela dignidade das pessoas bem propositadas e que clamam apenas pelos seus direitos assegurados no corpo da Constituição Federal, não pode ficar refém de ações nefastas de uns poucos. Para a nossa população, a verdade não é um enigma. Ela sabe muito bem que ela existe, onde está e com quem está.