Dentre os muitos prazeres que a arte pode proporcionar, nenhum supera o fato de estar diante do original. Ainda que originalidade possa ser um conceito questionável, penso aqui na obra enquanto ela mesma, não uma cópia ou reprodução.
Diante do quadro, do objeto ou da instalação, é possível observar o mundo por ângulos inesperados, o avesso das cenas, os seus infinitos sentidos. Nas últimas semanas, mergulhei neste universo: voltei ao Instituto Inhotim; revi os pós-impressionistas e Picasso. Não é pouco! Um resumo das artes moderna e contemporânea.
Acompanhar grupos de pessoas ao Inhotim é sempre um exercício atravessado de surpresas. É interessante observar a superação do “gosto” (não necessariamente sua exclusão) e a entrada em cena da observação que vai além da necessidade de reconhecer e sentir-se confortado. Perceber que “Isto não é um cachimbo” (Magritte) pode ser tão desconcertante quanto verificar que “isto é apenas um cachimbo”.
É como ouvir os sons da Terra, andar sobre cacos de vidro, divisar uma parede de vidro que não é vidro e, mesmo assim, hesitar em tocá-la. As fotografias de Cláudia Andujar e as de Miguel Rio Branco, em imensas galerias construídas para abrigá-las, obrigam a experiências de mediação entre arte e realidade e a novas possibilidades de encarar tanto uma quanto a outra.
Cada galeria é um universo à parte, onde confluem matérias e materiais de vária ordem e sistemas. É preciso estar disponível, sem as amarras de categorias e conceitos com os quais estamos acostumados a organizar nossos pensamentos e conhecimento.
Se isto não é suficiente, basta caminhar pelos jardins e admirar a natureza organizada pela mão do homem. Numa só palavra, basta contemplar ou observar, independentemente de gosto. Mas, para chegar até este ponto, foi preciso virar a arte pelo avesso.
Picasso fez isso e certamente é monstruoso. A exposição em cartaz no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, traz um título precioso: “Mão Erudita, Olho Selvagem”. Porque Picasso é isto mesmo: um dominador comum no trato da forma figurativa, como se vê nos primeiros trabalhos; um dominador raro na desconstrução da forma nos períodos cubista e surrealista; um dominador infinitamente único ao olhar a humanidade e os horrores da guerra.
Depois de “Guernica”, a arte nunca mais foi a mesma. Por isso vale a pena também ver “O Triunfo da Cor”, no CCBB São Paulo. Expografia exemplar desde a seleção de artistas e obras, até os textos explicativos, objetivos e claros, que induzem à observação demorada dos quadros, em detalhes que poderiam passar despercebidos. Pontilhistas, ou neoimpressionistas, como Seurat, Signac, Bonnard e seus seguidores; Gauguin e o grupo de Pont-Aven; Maurice Denis e os Nabis, até chegar ao ponto máximo com Gauguin, Cézanne, Van Gogh, Matisse, Dérain, Vlaminck e outras figuras do espanto!
Por mais perturbadoras que a arte moderna e a contemporânea possam ser para alguns, é sempre uma experiência de transformação. Além de um grande desafio, é claro!