Artigos e Opinião

OPINIÃO

Ruben Figueiró: "Entrevero político"

Ex-senador da República

Redação

22/06/2016 - 01h00
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Há mais de duas semanas o ex-presidente FHC em artigo no Estadão sob o título “Luz no fim do túnel?” lançou perspectivas de um novo tempo para as instituições político eleitorais de nosso país. Em certo trecho, que me permito transcrever, deixou consignado mercê sua avantajada perspicácia política: 
“Há a implosão de todo um sistema político eleitoral que aparta o Congresso, os partidos e mesmo o Executivo do sentimento popular. A legislação partidária e eleitoral criada a partir da Constituição de 1988 não corresponde mais aos anseios do povo, nem cria as condições de governabilidade que a sociedade requer.”

O presidente de honra do PSDB espera que o governo lance os primeiros passos para a efetiva reforma política. Vã esperança, penso. Nesse ambiente de turbulência e de manifestações espúrias que desnudam o toma lá, dá cá, será extremamente difícil a confluência das águas, onde se poderia levar a aproximação dos eleitos aos eleitores; onde se poderia construir pontes entre o povo e o governo, isso se possível com o parlamentarismo, eis que tal sistema, embora ideal para a estabilidade das instituições, já esteja sob observação severa daqueles que pretendem uma solução “meia-sola”, o semipresidencialismo de duvidosa utilidade institucional.

Fernando Henrique segue em seu lúcido raciocínio sobre a importância de reiniciar a discussão sobre a “cláusula de barreira” para tentar obstaculizar o festival de pequenas legendas, na realidade destituídas de legendas programáticas e, sim, daquelas que encobrem interesses inconfessáveis já postos a nu. E por aí vai.

Pela longa experiência de homem público, calcada nas tropelias acadêmicas de forte dose ideológica da esquerda democrática, tormentos de um longo exílio político e uma intensa, quão corajosa, luta pela restauração das liberdades em nosso país, isto com fibra e coragem indômitas, FHC marcou com seu oportuno artigo um alerta para que os atuais congressistas e o governo Temer, ainda provisório, deem um passo efetivo para afastar do campo das contendas político eleitorais esse entrevero de interesses que não conduzem a nada, pois tão envelhecidos como a Sé de Braga, que leva a sociedade desacreditar definitivamente nos políticos.

Recordo-me (era eu integrante da Assembleia Nacional Constituinte, 1987 a 1988) que o então presidente da República José Sarney apresentou na instalação do importantíssimo conclave um ante projeto para a Carta Magna, cuja redação teve as luzes de uma comissão de respeitados constitucionalistas liderados pelo hoje saudoso senador Afonso Arinos de Melo Franco. Era um texto sólido que armazenava as aspirações da nacionalidade. A proposta foi simplesmente ignorada. Se o que surgiu dos trabalhos constituintes tenha revelado inumeráveis avanços, sobretudo no campo social, permitiu, por outro lado, que a Constituição se tornasse vulnerável a permitir os entreveros que hoje se exproba e lamenta.

PS. Ao sair da Santa Missa dominical, fui abordado por uma senhora que me manifestou sua indignação com os seguidos escândalos ocorridos nos altos escalões da política e divulgados pela imprensa quase todos os dias, não sabendo em quem mais acreditar. Disse-lhe, então: A operação Lava Jato, a Procuradoria da República, a Polícia Federal, estão realizando uma ampla cirurgia para espulgar do tumor brasiliano os carnegões de bactérias e germes. Concluída a assepsia, teremos um novo País – acredito. Logo, logo teremos as eleições municipais, fique a senhora atenta na ficha dos candidatos, pense na importância da renovação de valores. Não deixe de votar. Vote consciente.

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