Artigos e Opinião

CENAS

Oswaldo Barbosa de Almeida: "Paixão virtual"

Advogado e escritor ([email protected])

Redação

23/06/2016 - 04h00

A internet veio para revolucionar o modo como as pessoas se comunicam. Amizades, namoros, relações comerciais, política e tudo o mais pode começar, evoluir ou terminar nas chamadas redes sociais. As novas gerações não sabem o que é escrever uma carta, levá-la ao correio e colar-lhe um selo para que seja remetida ao destinatário que, a depender do lugar, levará dias, semanas até, para recebê-la. O telefone fixo está desaparecendo.

Hoje as comunicações entre pessoas são feitas por mensagens de texto, imagens instantâneas em foto e vídeo, etc. Foi trocando mensagens pelo Facebook que eles se conheceram. Ele viu a página dela com uma foto, achou-a muito bonita e pediu para ser seu amigo. Ela aceitou e enviou-lhe a primeira mensagem, que foi imediatamente respondida. Vários dias se passaram num intenso troca-troca de mensagens “in box”, em que iam sendo revelados detalhes da personalidade, ocupação, preferências pessoais de cada um, algumas trocas de fotos, etc. 

Ela informou ter 22 anos de idade e ser ligada a atividades culturais: já havia escrito e publicado três livros, compusera várias músicas, tendo gravado dois discos. Ele disse que era piloto de avião particular e trabalhava para uma grande empresa de construção civil. 

Assim foi até que num determinado dia ele quis conhecê-la pessoalmente. Ela foi reticente, alegando que estava sem tempo, muito comprometida com alguns projetos ligados à sua atividade artística, prometendo que em breve marcariam um encontro.

Ele, ansioso, insistia; ela, tergiversava. Os dias e semanas foram passando e nada de se concretizar o encontro por ele tão desejado. Ele então resolveu tentar descobrir quem era ela realmente, dada sua resistência em marcar um encontro.

Num dia, teclando com uma amiga, ela deixou escapar que o trabalho na loja de móveis e eletrodomésticos estava muito chato e cogitava mudar de emprego. Ele viu, ficou inquieto e a dúvida o assaltou. Então decidiu visitar as principais lojas do ramo da cidade e procurar por ela. Entrava e indagava pelo nome da jovem. Não é que, logo na terceira casa visitada, um colega dela apontou-a? Ele olhou para aquela criatura e não acreditou que fosse a musa que procurava. 

Aproximou-se e ela, ao vê-lo, ficou paralisada e de olhos arregalados, pois o reconheceu pela foto. Já ela, que postara o nome verdadeiro, mas a foto de uma modelo muito linda, destoava inteiramente do retrato que vendia na internet. Além de ser apenas uma vendedora de móveis e utilidades domésticas e não a artista e intelectual que apregoava, era fisicamente desprovida dos encantos anunciados. 

Ele, totalmente desiludido, não sabia o que dizer-lhe; ela, igualmente muda, corava de vergonha.

Depois de alguns minutos nesse impasse, ele virou-lhe as costas, saiu da loja apressado e decidiu que nunca mais iria procurar namorada pela internet. Estava na hora de iniciar seu trabalho no banco; ao final do expediente saiu, passou na padaria e levou para casa o bolo que sua mulher havia encomendado.

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