Exames, cirurgias e internações não “aguardam” a boa vontade para que gestores iniciem investimentos. Infelizmente, a demora custa vidas.
Oatendimento na saúde pública de Campo Grande parece não ter problema algum. Certamente, qualquer usuário do Sistema Único de Saúde (SUS) espantaria-se ao ouvir tal afirmação. Faltam médicos, remédios e leitos nos hospitais. Por isso, surpreende tanto sabermos que, por pura ineficiência, a prefeitura deixou de utilizar R$ 9,2 milhões de recursos no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), entre os anos de 2013 e 2014. Enquanto isso, noticiamos, por diversas vezes, casos de pacientes que demoraram a ser atendidos por falta de viaturas, paradas em decorrência de problemas mecânicos. Por mais incoerente que pareça, essa não foi a primeira vez que sobraram recursos nos cofres, mas faltaram investimentos nos postos de saúde e hospitais da cidade. Clara evidência de deficiências administrativas em área considerada prioritária para os campo-grandenses.
Em março de 2015, o Correio do Estado noticiava que a Secretaria Municipal de Saúde deixou de aplicar R$ 70 milhões. À época, informavam que se tratava de “verba carimbada”, que poderia ser disponibilizada, posteriormente, para a atenção básica. Essa prática continua e tem sido recorrente. Entre janeiro de 2015 e abril deste ano os cofres públicos conseguiram injetar R$ 12,3 milhões no orçamento para a saúde pública na Capital apenas com rendimento de juros. O fato de a prefeitura estar deixando dinheiro para “render” tem causado estranheza ao Conselho Municipal de Saúde, que cobrou informações do Tribunal de Contas do Estado. Isso porque atendimento a urgências são protelados, enquanto verbas ficam represadas. Exames, cirurgias e internações não “aguardam” a boa vontade para que gestores iniciem investimentos. Infelizmente, a demora custa vidas.
A atual gestão é retrato claro do contrassenso e da displicência administrativa. É muita irresponsabilidade deixar unidades de saúde sem médicos e sem remédios suficientes enquanto há dinheiro sobrando. Inacreditável que ambulâncias do Samu deixem de receber a devida manutenção, deixando pessoas mais tempo aguardando por socorro. Até mesmo a Central de Regulação de Vagas, que direciona para onde os pacientes precisam ser encaminhados, poderia estar funcionando melhor se todos os recursos tivesse sendo aplicados. Além das irregularidades elencadas acima acerca das verbas represadas, preocupa-nos a previsão de reduzir os investimentos no setor no próximo ano, conforme diretrizes para o orçamento de 2017, aprovada na semana passada.
Chega ser vergonhoso acompanharmos essa restrição de recursos em meio a aprovação de convênio da prefeitura para auxiliar o Hospital do Câncer de Barretos de Campo Grande, com R$ 50 mil mensais, muito aquém das necessidades da unidade. Estão evidentes as falhas para aplicação de recursos, o que, em hipótese alguma, representa que há dinheiro sobrando. Pelo contrário, há problemas em excesso e demora demais para apresentar soluções. Pacientes apelam por socorro, mas a negligência persiste.