Uma tarefa bastante desafiante consiste na arte de acolher as pessoas. As muitas ocupações e preocupações envolvem de tal forma que se torna difícil dedicar tempo e espaço para acolher, ouvir e partilhar na gratuidade.
Essa arte de acolher é privilégio de quem possui um coração simples e sempre aberto para os demais. Essa arte é um segredo de quem alimenta sentimentos de carinho e de ternura com as pessoas que encontrar em seu caminho. Sabe que, antes de tomar qualquer atitude, é preciso se dispor a acolher o que lhe for proposto.
Nem sempre será fácil acolher com o coração. O caminho mais comum é aquele que nos leva a tolerar, a suportar e depois reclamar pelas costas. Não será fácil acolher uma doença indesejada. Não será fácil acolher um sofrimento causado por alguma contrariedade. Não será fácil acolher alguma dificuldade que se interpõe naquilo que se programa como projeto ou como alguma tarefa mais exigente.
Não será fácil para ninguém acolher a pessoa do outro. Pois será preciso acolhe-la em seu mistério. Toda a pessoa vive cercada e alimentada em seus muitos mistérios. Mistérios quanto ao modo de pensar, quanto à maneira de se relacionar, quanto ao jeito de executar tarefas e quanto à índole em expressar idéias e planos.
Será necessário proporcionar um espaço para essa pessoa poder transmitir tudo quanto tenha para revelar.
Aconteceu isso na vida do Mestre dos mestres. Uma ocasião decidiu visitar suas amigas Marta e Maria. Ao chegar à porta, Marta o recebe com alegria e o convida a entrar e acomodar-se na sala enquanto ela se dirigia à cozinha para preparar a ceia. Maria também vai ao encontro do visitante e senta aos pés para um bate papo e principalmente para escutar o que o Mestre falava.
Passado um tempo, Marta retorna à sala e vê os dois numa conversa animada e muito meiga. Reclama ao Mestre, não se sabe se por ciúme, ou por estar necessitando de ajuda. E o Mestre então lhe diz: “Marta, Marta, andas muito inquieta, e te preocupas com muitas coisas; no entanto, uma só coisa é necessária; Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada”. (Lc.10,41-42).
A melhor parte não era ficar sentada e ouvir de braços cruzados, mas era acolher e dar atenção a quem acabara de chegar. Em segundo lugar, era escutar com amor tudo quanto na sua ternura e no seu carinho estava revelando.
É difícil colocar-se no lugar do outro. Queremos que o outro nos aceite e nos acolha. Dificilmente entenderemos esse mistério. Mais difícil ainda será acolher o outro como Deus nos acolhe; amar o outro como Deus nos ama; perdoar o outro como Deus nos perdoa.
Existe um outro mistério chamado egoísmo. É uma força escondida em muitos corações. Vemos os efeitos, mas não descobrimos a fonte. Sentimos a influencia, mas não desvendamos seu potencial. É um parasita teimoso e persistente.
E o melhor meio para superá-lo será cultivando o desprendimento, a humildade e a generosidade no relacionamento com as pessoas e com Deus.