Havia mais de vinte anos que ele trabalhava em um banco, onde galgou diversas promoções, pois era muito competente e dedicado, desempenhando com esmero suas atribuições.
Casou-se muito jovem e teve oito filhos, o mais novo com oito anos de idade e o mais velho, vinte e dois. Sua mulher era do tipo “Amélia”, aquela que “era mulher de verdade”: dedicava-se inteiramente à administração do lar, ao marido e aos filhos. Como possuíam somente um carro, um Volkswagen sedan, o fusca, modelo 1958, muito bem conservado, a mulher o levava todos os dias para o expediente no banco e ia buscá-lo no final. Era ela também quem o levava a qualquer lugar aonde necessitasse ir.
Sua vida privada, entretanto, era uma rotina insípida, com pouca diversão e raras viagens e passeios. Morava em casa própria, relativamente modesta, que adquirira com financiamento do antigo Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Bancários (IAPB), no tempo em que ainda não havia a correção monetária e, por isso, pagava uma ninharia de prestação mensal.
Como trabalhava em regime de turno de seis horas corridas, nos termos da CLT, e o banco funcionava das nove da manhã às quatro da tarde em expediente externo (bons tempos!), complementava o salário com horas extras no turno da manhã. Quando acabava o expediente externo, às dezesseis horas, aqueles que trabalhavam em jornada de seis horas tinham direito a quinze minutos de intervalo para descanso, ocasião em que a maioria aproveitava para um lanche ou cafezinho em um bar próximo da agência.
Ele era totalmente caseiro, tinha pouca vida social, mas se sentia feliz. Raramente participava das reuniões festivas promovidas pelos colegas e estava sempre acompanhado pela mulher. As crianças ficavam em casa, sob os cuidados da mãe dela, que morava com eles.
Nas férias anuais, viajavam pouco, apenas visitas a parentes em Aquidauana e Corumbá, quando a família toda seguia pelo trem de passageiros da Noroeste do Brasil. Nas férias em que ficavam em casa, ele aproveitava para acrescentar alguns cruzeiros aos rendimentos trabalhando no escritório de contabilidade de um irmão seu.
A vida seguia assim, sem sobressaltos, até que um dia ele, na quietude da noite, dormindo, teve um enfarto e faleceu, surpreendendo a todos, pois nunca dera sinais de ser doente cardíaco. A mulher, apesar de arriada pela dor da perda, tomou todas as providências necessárias para o velório e o sepultamento.
Durante o velório, surgiu uma senhora relativamente jovem, com uma penca de oito crianças, que aproximou-se do caixão e desatou a chorar copiosamente. Intrigada, a viúva avizinhou-se a ela e perguntou-lhe o motivo de seu pranto, quando ouviu que ele era o pai de todas aquelas crianças.
A viúva, inconformada, disse que isso era impossível, pois, desde que se casaram, eles nunca se separaram, e que ela o acompanhava em todos os lugares, inclusive levando-o e buscando-o no local de trabalho. A outra, soluçando, respondeu-lhe: “Sim, mas tinha os quinze minutos do cafezinho!”
*Advogado e escritor ([email protected])