No final dos anos cinquenta, exerci a função de Agente Postal em Água Clara, na época um pitoresco povoado situado às margens da Noroeste do Brasil, a cento e noventa quilômetros de Campo Grande. A vida noturna ali se resumia em passear na estação ferroviária, para ver a chegada dos trens de passageiros, ocasião em que as donzelas casadoiras não perdiam a oportunidade de se exibirem com suas melhores roupas, e seus belos penteados feitos a capricho pela única cabeleireira da localidade, a japonesinha Maria. Era uma festa, que não durava mais de uns quarenta minutos.
O trem apitava de longe, e a plataforma da estação se apinhava de pessoas, umas para viajar e outras apenas para o footing de um lado a outro da plataforma, para ver os passageiros dentro dos vagões. “Para ver cara nova”, como diziam.
A locomotiva era re-abastecida naquela estação com água e lenha, enquanto um manobreiro ia virando a agulha dos trilhos para as composições cargueiras se desviarem doDP1 ou do DP2, como eram os prefixos dos trens de passageiros. Também, outro trabalhador corria rapidamente de ponta a ponta do trem, por debaixo dos vagões, verificando as condições das sapatas.
Na hora da partida, o chefe do trem se posicionava num ponto da plataforma e emitia três apitos. Era uma correria geral, quando os passageiros subiam nos respectivos vagões, para se acomodarem em seus lugares. O maquinista emitia um silvo, e a locomotiva começava a se mover lentamente até desaparecer silvando pela imensidão do serrado.
Era sempre assim a rotina em Água Clara.Um dia os moradores da cidade tiveram uma alvissareira notícia: a chegada da “francesa”, uma locomotiva moderna, que fazia parte de um lote de novas locomotivas compradas na França pela Noroeste do Brasil. Naquele dia ela - a francesa, a colossal locomotiva - ia chegar de Bauru ao anoitecer. E assim, a quantidade de curiosos dobrou na plataforma da estação.
Todos estavam ansiosos para ver a francesa. No ponto de espera do vagão-correio, eu aguardava a permuta das malas postais, enquanto outras pessoas iam se acomodando onde pudessem. De repente, ouvem-se os apitos de uma locomotiva entrando no perímetro urbano de Água Clara. Era a francesa! Todos ficaram em silêncio, olhando para o lado de Três Lagoas.
Lá vinha ela, a bela francesa toda iluminada, apitando languidamente como um meteoro feericamente iluminado, com suas luzes vermelhas e azuis se aproximando. Logo adentrou na estação a elegante francesa, como uma vedete emplumada no Moulin Rouge de Paris, puxando valentemente uma extensa composição de vagões de passageiros. Realmente, uma maravilha da tecnologia francesa! Todos se emocionaram, alguns até com lágrimas nos olhos. A francesa ia passando elegantemente com seu porte clássico pela plataforma da estação, enquanto o povo ali espremido batia palmas freneticamente, numa apoteose gloriosa como a Marselhesa!
A partir daquele dia a francesa passou a ser uma grande atração para o povo de Água Clara. Era só ela apitar nos arredores da cidade, para as pessoas correrem às margens dos trilhos para saudá-la, acenando chapéus e lenços. O footing na plataforma da estação passou a ser mais romântico.
Todos queriam ver a formosa francesa toda iluminada, que chegava a tirar suspiros de muitos, enquanto seus condutores – maquinistas e foguistas – esquecidos da dureza do trabalho, pousavam altivos em ambas as janelas da francesa, como astronautas vaidosos no espaço sideral!
Os anos passaram rápidos. Um dia desses, circulando pela BR-262, vi no pátio de uma estação depredada, uma velha locomotiva abandonada, maltratada pelo tempo. Aproximei-me, e vi a Flor de Lis da França enferrujada, fixada numa placa de metal no lado externo da cabine do maquinista. Confesso que chorei de tristeza!