Em meio ao cenário de descrença com a classe política, é preciso, como nunca, que o eleitor compareça. Pois dependerá dele mudar o rumo da administração pública.
As eleições municipais que se aproximam, certamente serão as mais atípicas desde a redemocratização, na década de 1980. São vários os ingredientes que fazem da disputa do próximo mês de outubro a mais incerta para candidatos e eleitores. Enquanto a votação não acontece, com base em dados das últimas eleições, como demonstrou o Correio do Estado na edição de ontem, é possível antecipar o comportamento dos cidadãos aptos a votar. A julgar pelos dados do Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul, muitos não devem comparecer às seções.
Na comparação entre as eleições de 2012 e de 2014, o índice de abstenção aumentou 784%. Foram 6.797 eleitores faltosos em 2012, e em 2014, a quantidade saltou para 54.729. Há de se contextualizar que tratam-se de dois pleitos diferentes. No primeiro, houve eleições para prefeito e vereador, e o segundo, a escolha foi para os cargos de presidente, governador, senador e deputados federais e estaduais. Devido à proximidade da população com os candidatos, há de se ponderar que é comum um comparecimento maior nas eleições municipais.
A contextualização dos números, contudo, devido à impressionante diferença de uma eleição para outra, não explica o altíssimo índice de abstenção de 2014. No intervalo entre as duas últimas eleições ocorreram os protestos de junho de 2013, apartidários, que demonstraram a insatisfação geral da população brasileira com os políticos. A crise de representatividade ficou exposta, e desde então pouco, quase nada, foi feito para melhorar este cenário.
O resultado da inércia da classe política nos últimos três anos em reformar o sistema de representatividade é um eleitor cada vez mais insatisfeito. Soma-se à causa do desinteresse crescente dos cidadãos com a política, a enxurrada de denúncias e investigações contra agentes públicos.
Por causa de todo este contexto, os candidatos entram no período eleitoral apreensivos como nunca. O eleitor está mais crítico, e será mais difícil conquistar sua confiança. Para piorar ainda mais o clima de incerteza entre os políticos, as alterações nas regras de financiamento de campanha (uma das poucas mudanças criadas a partir dos protestos de 2013) trouxeram mais austeridade para a disputa, que já foi fortemente prejudicada pela crise econômica do país.
Em meio a todo este cenário de descrença com a classe política, é preciso, como nunca, que o eleitor compareça. Pois dependerá dele mudar o rumo da administração pública. O momento pelo qual passamos requer atitude. O cidadão que cobra mudanças, deve fazer sua parte. Aquele que vota, tem muito mais eloquência e propriedade para cobrar de seus candidatos as promessas de campanha.
As próximas eleições serão, sem dúvida, o maior desafio eleitoral já proposto ao eleitor brasileiro e sul-mato-grossense. A falta de continuidade das gestões atuais no governo federal, e também no município de Campo Grande, estão ligadas ao processo eleitoral que lhes deram origem.