Com a aproximação do período eleitoral propriamente dito – descontados o das tratativas alongadas e cansativas dos meses passados – a cada dia mais evidente as profundas transformações nele ocorridas de 1945 à esta parte de nossa história. Quando eu volto ao passado e apelo para a memória octogenária, ainda vibrátil, vêem-me a cena as campanhas eleitorais das décadas de 40 e 50 do século passado. As que elegeram Eurico Gaspar Dutra sobre Eduardo Gomes à presidência da República, após a ditadura de Getúlio Vargas com seu Estado Novo; A eleição de Arnaldo Estevão de Figueiredo vencendo Dolor Ferreira de Andrade para primeiro governador após a Constituição Liberal de 1946; A pugna que levou Fernando Corrêa da Costa sobre Nonô Mena Gonçalves a Prefeitura de Campo Grande, decorrente da Carta estadual de 1947; A renhida disputa de guindou Fernando Corrêa da Costa ao governo do estado ao vencer Filinto Müller em 1950; A empolgante eleição de Marcílio de Oliveira Lima, “o risadinha” sobre Willian Macksoud em Campo Grande, no ano de 1954. Era mote após as eleições para que os vencedores gozassem os vencidos com a hilariante chacota “ chora bugrada que o pranto é livre”. Tanto que o “troco” vinha logo a seguir com a mesma gozação quando a vitória sorria para o outro lado e isto aconteceu com a vitória de João Ponce de Arruda sobre Rachid Saldanha Derzi em 1955 para o governo do Estado. A vitória do “homem da vassoura”, o decepcionante conterrâneo Jânio Quadros em 1960, cujos gestos tresloucados da renúncia levou o País de roldão por mais de meio século com transformações que abalaram nossas estruturas democráticas.
Àquela época as campanhas eleitorais motivavam o eleitorado que com entusiasmo defendiam as propostas de seus partidos de forma espontânea e praticamente se desconhecia o curso do vil metal, o malsinado “caixa dois”. Diferente do que ocorre de uns 30 anos à esta parte. De tombo em tombo o dinheiro de fonte oficial surgiu pelos escaninhos imundos e especuladores empresariais, abrindo as portas para os empreiteiros gananciosos e se criou a figura de um monstro – o marqueteiro. Da fantasia dele surgiram os enlatados nas televisões, a sofisticada e caríssima propaganda gratuita (que já custam bilhões ao erário público) e enfastiam os telespectadores. Votar já não é um ato cívico de prazer. É o sacrifício de um dever.
Creio que a extinção dos partidos políticos tradicionais – afirmação que reitero uma vez mais com o Ato Institucional II, em novembro de 1965, foi o tentacular demolidor da consciência partidária permitindo a existência dos postiços ARENA e MDB, circunstâncias que ainda persiste ressalvadas algumas agremiações de solidez doutrinária. Os adventícios que surgiram sobretudo após a Lei Magna de 1988 não subsistem a um estudo sério sobre seus reais propósitos ideológicos e doutrinários, tropeçam diante das contingências do temporal político. O pragmatismo licencioso no ato de opção partidária é geralmente movida por interesses imediatos de caráter eleitoral e que cessam logo após, não há constrangimento para abandoná-lo. É o que se faz com a maior cara de pau...
Naqueles tempos já envolvidos pela patina do antigamente, fazer política tinha um sentido mais consentâneo com a fidelidade à uma doutrina,coerência de atitudes e lealdade aos compromissos partidários. Embora houvesse “ quem virasse a casaca” ato repugnante, era fato inusitado, hoje lugar comum e parte do deplorável repertório político.
O rei D. Sebastião de Portugal, vencido na Batalha de Alcácer-Quibir, no Marrocos deixou aos seus saudosos súditos a eira da esperança, a esperança de tempos que não voltarão jamais, embora se renove à véspera de todos os eventos significativos da história, como das eleições municipais próximas, gerando a expectativa de bons governos, governantes probos, partidos de verdade.